Intervenção no XVII Congresso do PCP


Fernando Vicente

28-11-2004
 

 

Camaradas,

As questões relativas ao nosso Partido são hoje decisivas e centrais, com vistas ao seu reforço, fortalecimento e intervenção.

O Partido, instrumento valioso ao serviço dos trabalhadores e do Povo Português, é essencial, indispensável e insubstituível no Mundo e no Portugal de hoje.

Na luta contra a direita (caceteira, anti-democrática e com traços fascistóides), o PCP, que foi o grande partido da resistência e da luta pela Liberdade, terá de ser, com ambição e determinação, o Partido da mudança e do Socialismo.

Coerentemente terá de ser um partido de valores e de futuro , cuja opinião (e sobretudo a prática) seja escutada e tida em conta (não só pelos militantes activos mas pelo Povo Português), com poder de atracção e confiança dos trabalhadores e camadas anti-capitalistas.

Coerentemente, e de acordo com o seu rico e valioso património de 83 anos, a prática, a acção, a vitalidade e luta do PCP são condições indispensáveis à unidade e prestigio do Partido.

Coerentemente terá de ser o partido dinamizador da unidade real das forças democráticas e patrióticas, dignificador da actividade e vida politicas.

Venho defendendo que o XXVII Congresso – nas suas diversas fases -:

- fosse um Congresso de entendimento, unidade, tolerância e pacificação da nossa vida partidária;

- fosse um momento de reflexão, acabando com a crispação, a rotulagem e a exclusão;

- fosse o momento privilegiado para o lançamento de pontes num Partido vivo, actuante, participado e participativo, que fosse o reflexo de uma abertura, fraternal, verdadeira e dinâmica da vida partidária;

- fosse o momento real de reflexão acerca dos nossos erros, insucessos e debilidades, da nossa perda continuada de influência social, politica e eleitoral, da nossa perda de militância e dinâmica partidárias;

- fosse o momento de uma corajosa, rigorosa e verdadeira análise das nossas dificuldades, de forma a contrariar a frequente concepção virtual da nossa actividade e das nossas forças;

- fosse o Congresso da recuperação da alegria e da participação activa e entusiasta da militância, com a recuperação e integração sincera (e não meramente formal) dos militantes que foram realmente afastados/marginalizados ou se foram afastando, e que constituem hoje o exército dos desistentes e desiludidos, dos “já não vale a pena”;

- fosse o momento real (e não apenas formal) de abertura e combate à dogmatização e estagnação teórica, com respeito efectivo pelo “novo” e pela diferença;

Em meu entender não foi este o caminho realmente seguido:

- porque se vê na discordância a dissidência;

- porque se associa o pensamento livre ao erro e à traição, porque se cataloga a diferença como acção do capital integrada em tenebrosa campanha anti-comunista, porque se caluniam os diferentes como lacaios ao serviço de outras forças partidárias;

- porque se exclui quem não é incondicional (afastando-o ao direito e dever estatutários da militância e/ou pagamento das cotas);

- porque se consolida na prática o poder aparelhistico, o tarefismo e o controleirismo estiolantes em detrimento do alargamento da militância responsabilizada, activa, alegre e mobilizadora;

- porque se está criando em muitos lados a cultura burocrática da estatística virtual, do dinamismo imaginário;

-porque se aceitou como inevitável o nosso enfraquecimento e divisão, num fechamento crispado e sectário, marginalizando muita capacidade critica dos nossos militantes;

Camaradas,

- Não aceitando o (real e actual) estilo de trabalho interno do nosso Partido, recuso e combato os ataques sistemáticos e doentios ao PCP, e também a intervenção da lei dos partidos na nossa vida interna;

- Porque entendo um Partido aberto à vida, ao diálogo e ao debate, um Partido que combata (realmente) a dogmatização e estagnação teórica, que não transforme os princípios teóricos em verdades eternas, que não ajeite a realidade à sua concepção e vontade;

- Porque entendo que os comunistas não se rendem, ajoelham ou se deixam afogar na maré das dificuldades, ou desistem de defender a sua honra e dignidade;

De acordo com os valores que me formaram no PCP, vou votar contra a Proposta de Resolução Politica.

Viva o Partido Comunista Português

Viva Portugal

Fernando Vicente