60 anos do Centro Nacional de Cultura

“QUO VADIS LUSITANIA?”,  1968 – 1969

 

José Manuel Galvão Teles

Joana Lopes

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    Ia adiantado o ano de 1968, o mais alucinante da última década do fascismo. O Maio francês tinha deixado marcas em Portugal e alguns aproveitaram as férias de verão para procurar, nas ruas de Paris, o que restava de euforias recentes.

    Salazar caiu da cadeira a 6 de Setembro e Marcelo Caetano tomou posse a 27. Disse que não queria ver os portugueses divididos como inimigos e que não lhe faltava ânimo para enfrentar os ciclópicos trabalhos que antevia. Em pleno Outono, começou a “Primavera Marcelista” (a de Praga tinha terminado a 20 de Agosto, com a invasão da Checoslováquia pelas tropas soviéticas). Muitos alimentavam grandes esperanças, outros nem por issoO Tempo e o Modo publicou, ainda em 1968 (nº 22/23), um conjunto de “Depoimentos sobre o momento político que espelhavam bem esta realidade.

    O mundo dos chamados “católicos progressistas” estava especialmente activo. Esbatidas  as esperanças de abertura criadas pelo Concílio Vaticano II, multiplicavam-se os grupos mais ou menos clandestinos de padres e leigos, cada vez mais politizados e em conflito crescente com a hierarquia da Igreja. Padres, primeiro da diocese de Lisboa e depois de todo o país, reuniram-se na “Tribuna Livre”. Entre eles, alguns dos principais responsáveis pelo Seminário dos Olivais que, em Outubro, se demitiram dos cargos.

    As homilias de domingo do Padre Felicidade tinham continuado a agitar as águas, com denúncias cada vez mais abertas da PIDE, da censura e da guerra colonial. A 8 de Novembro, o Cardeal Cerejeira retirou-o do cargo de pároco de Belém e suspendeu-o das funções sacerdotais. Um grande grupo de católicos dirigiu-se então para o Patriarcado onde se acantonou no átrio e numa pequena área do passeio, protegida por um gradeamento e por isso a salvo da intervenção policial. Foi pedida uma audiência ao Cardeal Cerejeira que não apareceu e enviou um secretário para dispersar os presentes. Ficará na memória de todos “Esta casa é nossa!”, um grito repetidamente  lançado nessa tarde, no seu jeito bem peculiar, por Francisco de Sousa Tavares.

    Estreitaram-se os laços com os que tinham saído do país. Os Cadernos Socialistas publicaram um número especial sobre “A Igreja em Portugal”, preparado ainda antes de Marcelo Caetano substituir Salazar, com artigos de elementos no exílio (Manuel Lucena, por exemplo) e de outros que viviam em Portugal e assinaram sob pseudónimo.

    A passagem do ano de 1968 para 1969 iria ser marcada por um acontecimento de forte impacto. Depois de uma missa, celebrada pelo Cardeal Cerejeira na Igreja de S.Domingos em Lisboa para assinalar o Dia Mundial da Paz, representantes de muitas dezenas de pessoas informaram-no de que permaneceriam em vigília na igreja durante toda a noite. Acusaram os bispos portugueses de revelarem “mais uma vez a realidade do compromisso político da Igreja frente ao Estado”, na nota pastoral, datada de 13 de Dezembro, em que convidavam os católicos a participarem nas iniciativas de celebração do Dia da Paz e se referiam aos “povos ultramarinos que integram a Nação Portuguesa”.   Os promotores da vigília pretenderam, nomeadamente, “assumir publicamente, como cristãos, um compromisso de procura efectiva da Paz frente à guerra de África”, que disseram não poderdesconhecer, camuflar ou silenciar”. Uma Cantata da Paz, com versos de Sophia de Mello Breyner, ficaria para sempre associada a este evento.

 

    Neste contexto, realizaram-se, a 27 de Novembro de 1968, eleições para os corpos gerentes do Centro Nacional de Cultura. José Manuel Galvão Teles passou a ser o novo Presidente, Joana Lopes Vice-Presidente. Ambos tinham feito parte da Junta Central da Acção Católica durante dois anos e tinham-se demitido dois meses antes. Os restantes membros da Direcção eram: Teresa Amado, Manuel Moita, Sebastião José de Carvalho, António Reis e Nuno Portas todos bastante jovens, católicos ou ex-católicos. A Mesa da Assembleia Geral passou a ser presidida por Henrique Martins de Carvalho, tendo com vogais Gonçalo Ribeiro Teles e Augusto Ferreira do Amaral. O Conselho Fiscal ficou constituído por José Ribeiro dos Santos, Francisco de Sousa Tavares e  Francisco Lino Neto. A Direcção reflectia uma renovação total, a continuidade era assegurada nos outros corpos gerentes.

    A nova Direcção começou imediatamente a organizar debates e reuniões na sede do Centro e procurou angariar fundos e novos sócios.

    Entretanto, a oposição pensava nas eleições legislativas do ano seguinte. Em 20 de Janeiro de 1969, foi criada a Comissão Promotora de Voto por carta enviada ao Presidente do Conselho. Entre os quarenta e três subscritores, seis eram membros dos corpos gerentes do Centro Nacional de Cultura.

    Era importante tirar partido de todas as ocasiões de debate, tão alargado quanto os condicionalismos o fossem permitindo. O Centro planeou então uma iniciativa de grande vulto, consubstanciada em três sessões a serem realizadas no primeiro trimestre de 1969, sob o nome genérico de “Quo Vadis Lusitania?”. Cultura, Economia e Política foram os grandes temas escolhidos, a sede da Sociedade Nacional de Belas Artes o local  conseguido para a realização.

    O sucesso das duas primeiras sessões e as expectativas criadas pelo tema da terceira Política – ultrapassaram a capacidade de tolerância da “Primavera Marcelista”. Dois dias antes da data prevista, o Ministério da Educação comunicou oficiosamente à SNBA que deveria recusar a cedência da sala, sob pena de encerramento (a pretextooficial” de um pretensa irregularidade burocrática no seu funcionamento, sem qualquer ligação com a cedência em questão).

    Havia que encontrar um outro local. Seguiram-se quarenta e oito horas vertiginosas e inesquecíveis para José Manuel Galvão Teles e Joana Lopes, com o apoio moral e logístico de Maria do Carmo Galvão Teles. Tudo foi tentado: clubes recreativos, associações de bombeiros, escolas, a Sociedade de Geografia. Chegou a pensar-se alugar um cacilheiro. De madrugada, foi no Porão da Nau que se procurou convencer Vasco Morgado a ceder ou alugar um teatro. Foram feitas DEZASSETE tentativas. Em vão.

    Restava ir à hora marcada à SNBA comunicar o sucedido às centenas  de pessoas que aguardavam perto das portas encerradas e mostrar a lista dos dezassete esforços infrutíferos. Deu-se então o inesperado: alguém, que nunca tínhamos visto, veio dizer que era dono de uma fábrica de papel situada na Av. do Brasil e que a punha à nossa disposição. Tememos que fosse uma cilada. Felizmente houve quem reconhecesse o Rui Peixoto, a quem ficaríamos eternamente gratos. Foi rápida a migração da Barata Salgueiro para a Av. do Brasil, onde nos esperava novo problema: a dita fábrica situava--se num primeiro andar e o espaço, embora grande, estava parcialmente ocupado com pesadíssimos rolos de papel. Havia que limitar as entradas porque se temia que o chão não aguentasse, o que não foi pacífico. Ficaram muitas pessoas na rua e, entre elas, dirigentes e outros membros do MRPP, extremamente aguerridos, que exigiam entrar e tentaram mesmo derrubar a porta, avançando sobre ela com rolos de papel.

    O colóquio ia decorrendo com todos os conferencistas previstos presentes. Eram eles: Mário Soares, Jorge Sampaio, Mário Sottomayor Cardia, Nuno Teotónio Pereira e Francisco Lino Neto. Representavam os diferentes quadrantes  da esquerda portuguesa.

    A polícia rondava. Temia-se uma intervenção porque o tempo avançava e era imperioso terminar antes da meia noite. Foi então decidido correr o risco de sobrecarga por alguns minutos e abriu-se a porta para que mais pessoas pudessem entrar. O chão não caiu...

     José Manuel Galvão Teles e Rui Peixoto foram chamadas à PIDE alguns dias depois para prestarem declarações.

    Mas o “Quo Vadis Lusitania?” tinha-se realizado. Valeu a pena.

    Serviu “para muitos dos inimigos do regime, como Mário Soares, Jorge Sampaio, Mário Sottomayor Cardia e outros, fazerem a propaganda e apologia dos seus ideais demolidores da ordem e do progresso (...) num ciclo de conferências a que deram o nome de “Quo Vadis Lusitania?” (...), onde não foi até poupada a linha do Governo relativamente à sua política ultramarina”. Quem o disse foi a PIDE, num Relatório datado de 29 de Março de 1969, que se encontra incluído nos nossos processos individuais, consultados recentemente na Torre do Tombo.