A NOSSA "CRISE" E A (R)EVOLUÇÃO DELES
 

por José Pacheco Pereira

(publicado no Público em 12 de Julho 2008)

__________________________________________________________

 

"Crise" é a palavra que mais se ouve por estes dias. As análises e os vaticínios mais negros quanto à dimensão da "crise" são o pão-nosso de cada dia. Quem nos ouve fica com a impressão de que o mundo caiu num buraco monumental, de que não se consegue sair, e com o mundo todos nós atrás. E, no entanto, não é verdade. O mundo não está em "crise". Somo nós, países industrializados ocidentais, na Europa e nos EUA, que estamos em "crise", não é o mundo. Bem pelo contrário, o mundo está bem e recomenda-se.

Há países a ganhar com a "crise", com o aumento do preço do petróleo, com o aumento do preço dos alimentos, ou seja, há países que não estão em crise, ou, pelo menos, não estão na nossa "crise". Nesses países, muitos dos ganhos vão para dirigentes políticos corruptos, para déspotas cruéis e a sua corte, para elites plutocratas, mas também há muita gente comum que está a ganhar com a "crise". Pessoas até há pouco tempo muito, muito pobres, estão a deixar de ser pobres, a terem acesso a bens e recursos que eram impensáveis até há pouco tempo, com uma qualidade de vida que nunca tiveram. Na verdade, há uma gigantesca transferência de recursos entre os ricos do passado e os pobres do passado. Essa deslocação não se faz sem sobressaltos, sem que muito não fique pelo caminho e sem que muito vá parar a mãos pouco recomendáveis, mas nem por isso deixa de se estar a dar uma verdadeira revolução na qualidade de vida de milhões e milhões de pessoas, a começar pela China e pela Índia.

É isto que muito do discurso sobre a "crise" não quer admitir, à direita porque isso significaria reconhecer que o centro do mundo já não está em Washington, nem em Paris, nem em nenhuma capital ocidental (e se estiver é em Berlim e Londres) e à esquerda porque o discurso sobre a globalização é miserabilista, tem que ser miserabilista mesmo contra as evidências, e é difícil engolir que o capitalismo comunista chinês está a tirar milhões da pobreza e a fazê-los entrar no mercado mundial, como Marx desejava. E que a turbulenta Índia, da fome mais extrema, onde milhões de pessoas vivem na imundície, onde os extremos de degradação convivem com um programa espacial, esteja a seguir o mesmo caminho. O que acontece é que o nosso discurso sobre a "crise" ocidental tem muito de europocentrismo e de complacência e, o que é mais perigoso, muita fuga à realidade, estando muito longe de nos dar uma verdadeira dimensão da crise.

Deste ponto de vista, a "crise" é ainda muito pior do que se pensa. A "crise" nos EUA e na Europa não é apenas económica - aliás, nada é apenas económico -, mas sim social, cultural, política, civilizacional e, só quando se vê neste conjunto, se percebe a sua importância e profundidade. Como de costume, embora não comecemos habitualmente por aí, a crise é em primeiro lugar uma crise do poder ocidental, do poder das grandes democracias ocidentais, dos EUA e da Europa. No âmago dessa crise está a da força, a do poder militar, a do poder de projectar as políticas pela força armada, caso tal se verifique necessário e nas condições em que as democracias o fazem.

A Europa conta pouco para este aspecto da crise, porque é irrelevante no plano militar, com excepção do Reino Unido, mas os EUA contam muito. O mais preocupante dos nossos dias é que a grande democracia armada ocidental se encontra manietada, por erros próprios, pela divisão das alianças a que pertencia e pela dificuldade cada vez maior das democracias prosseguirem políticas com custos em vidas e bens, face às opiniões públicas e face aos ciclos eleitorais. O fim atribulado da presidência Bush e as políticas derrotistas do candidato democrático Obama aumentam ainda mais esse efeito de impotência, que dá aos inimigos dos EUA e dos seus aliados oportunidades que exploram até ao limite. É o que o Irão está a fazer, sem resposta convincente americana, o que colocará de novo Israel na frente do combate, porque para Israel é uma questão de sobrevivência sem opção. A conjuntura iraquiana constituiu uma sombra poderosa, mas só é um problema gravíssimo porque o centro de decisão geoestratégico está a ceder.

Quanto à Europa, a crise afecta outra forma do poder ocidental que tomávamos por adquirido, o poder político-económico. A UE, uma potência económica global, conhece outro tipo de crise, que está rapidamente a minar aquela que foi uma resposta inicial poderosa à globalização: o mercado livre e a moeda única. Ameaçada nas suas fronteiras por uma competição vinda da Ásia, a que se soma os impasses e os atrasos face aos EUA em áreas de inovação tecnológica, que já eram evidentes, na década anterior, com um modelo a que chama "social" insustentável face à pressão combinada da baixa de natalidade, do aumento da população idosa, e da competição global, a UE perdeu a direcção e tornou-se conservadora. Tenta manter a riqueza e o poder que teve, ao mesmo tempo que assiste à sua contínua erosão. Os impasses institucionais dos últimos anos, com tratado após tratado recusado pelos eleitores quando para tal têm oportunidade, são também um revelador de uma decadência do impulso unificador que desde o pós-guerra fizera a Europa.

Enquanto a crise nos EUA se faz através de uma pressão isolacionista em matéria de política externa, deixando as democracias desarmadas perante inimigos violentos, na Europa ela manifesta-se através de uma pressão proteccionista. Com pretexto nas condições de trabalho existentes na Ásia, em particular na China e na India, onde vê apenas "dumping social", a Europa vai começar a repor a sua "fortaleza" face ao mundo global. Mais: vai repor essa fronteira fora e inevitavelmente vai repô-la dentro, começando cada país a tentar "proteger" a riqueza dos seus da competição dos outros. A recusa da liberalização do mercado de serviços, da directiva Bolkenstein, foi apenas o sinal mais evidente da solução fácil: manter o "modelo social europeu" através de fronteiras que mantenham de fora não apenas os têxteis chineses, como os canalizadores polacos. O problema é que em breve não vão ser apenas os têxteis chineses ou as bugigangas das lojas de trezentos, mas também os carros, os electrodomésticos, os navios, a electrónica toda, quase tudo. Já viram quantos engenheiros estão a ser formados na China?

Há muitos pés de barro do lado dos que não estão em crise, na China em particular. O regime político conhecerá convulsões. Os donos do petróleo também não vão ter um futuro manso. Mas, dito tudo isto, a globalização, a entrada final de todo o mundo no mercado, só prejudica quem fica de fora, como é o caso de África, ou quem vai pôr o dedo no dique como o menino holandês, a tentação europeia. Como todas as grandes mudanças, é turbulenta, há quem ganhe e quem perca. Na actual "crise" estamos nós a perder, mas muito mais gente a ganhar e por isso convinha dobrar a língua quando falamos de crise. A nossa lamentação sobe aos céus, mas para muitos milhões de homens são palmas que se ouvem. A vida é cruel, como todos sabemos.