O mal

Miguel Poiares Maduro

(publicado no Diário de Notícias em 4 de Maio 2005)

__________________________________________________________

 

Fui ver A Queda e gostei. Trata-se do muito discutido filme sobre os últimos dias de Hitler no seu bunker em Berlim. Alguns criticam uma hipotética humanização de Hitler no filme. Não estou de acordo. O filme demonstra que Hitler é humano mas isso é bem diferente de o humanizar. Não nos suscita compaixão por ele. Apenas nos demonstra que Hitler é também "um de nós". E isso é o que o filme tem de perturbador e importante. É que só reconhecendo Hitler como humano podemos entender como é que ele foi possível e impedir a sua repetição. O filme permite-nos reflectir sobre a natureza do mal. O mal que se manifesta na figura de Hitler mas também o mal muito mais disperso e difuso que permitiu Hitler e o nazismo.

 

No livro Explaining Hitler, Ron Rosenbaum apresenta as inúmeras teorias que foram desenvolvidas visando explicar Hitler. Psicopata, vitima de abusos, sangue judeu, encefalites, ausência de um testículo…: são inúmeras as teses, mais ou menos credíveis, que procuram explicar o porquê de Hitler. Rosenbaum detecta duas grandes culturas académicas no discurso sobre Hitler: uma corrente apresenta-o como um icon do mal absoluto, a outra acentua os factores históricos, ideológicos e sociais que teriam moldado e determinado alguém como Hitler.

 

A grande vantagem do filme A Queda é, precisamente, não procurar explicar Hitler: limita-se a ser um espelho de Hitler e dos que o rodeavam de uma forma distante e seca (não emocional, o que é diferente de amoral). Isso acentua o absurdo de todo o seu discurso e visão do mundo mas de uma forma que, ao mesmo tempo, o encaixa na realidade humana, sendo alguém que agradece o almoço, sorri à secretária ou faz festas ao cão. É esta capacidade de manter o absurdo e odioso de Hitler sem o desprender deste mundo que é importante reter. É que a concentração exclusiva numa compreensão patológica de Hitler tem inerente o risco de despersonalizar o mal. Hitler seria uma espécie de extraterrestre que não partilharia das nossas características humanas. Dessa forma, não teríamos que temer a sua repetição nem tirar conclusões sobre a nossa relação com o mal. Foi algo que aconteceu mas que "já passou e não volta mais" … Como diz Rosenbaum todos os que pretendem apresentar Hitler como totalmente antinatural fazem-no, em larga medida, para evitar abordar as consequências de imaginar que ele podia ser, nalguma medida, "normal".

 

Esta dificuldade de lidar com o mal como humano ainda hoje se manifesta na tendência para considerarmos que alguém que mata uma pessoa é um assassino, enquanto que quem mata milhões é vítima de uma doença mental. No seu livro, Rosenbaum refere que detectou em grande parte dos autores uma enorme resistência em aceitar que Hitler podia ser consciente do mal. Conscientemente, ninguém faria tal coisa, parece ser o pressuposto. Seja um determinismo genético ou social a tendência é para separar o mal da livre vontade. O paradoxo é que é precisamente esta separação que permite ao mal normalizar-se.

 

Em A Queda os personagens que rodeiam Hitler são representativos dos diferentes tipos de colaboradores nazis: do psicopata louco como Goebbels ao intelectual aliciado pela representação artística da ideologia da pureza e perfeição tão intelectualmente sedutora; do militar dominado pela ideia da obediência associada à subjugação do indivíduo ao grupo ao tecnocrata para quem instalar uma linha de produção de automóveis era igual a criar um processo de exterminação dos judeus. A grande maioria destes personagens parece dominada por aquilo que Hannah Arendt denominou, de forma controversa, "banalidade do mal". Com isso Arendt não pretendia banalizar as acções do nazismo mas sim caracterizar a atitude de muitos daqueles que nele colaboraram. Arendt chegou a essa conclusão ao seguir o julgamento de Eichmann (responsável pela execução da "solução final"). De acordo com a filósofa, Eichmann não nutria qualquer ódio particular pelos judeus. Era um mero burocrata que seguia ordens cegamente sem qualquer capacidade de juízo crítico. As consequências das suas acções eram-lhes estranhas. Não era o ódio mas sim a incapacidade de pensar que explicavam a sua participação no projecto nazi. Essa incapacidade de pensar não deve ser confundida com pouca inteligência. Refere-se antes à ausência de juízo crítico e de um debate consigo mesmo. Esta atitude acaba, no fim de contas, por se tornar condutora do mal e normalizá-lo (talvez seja por isso que ninguém acredita no bem se houver o mínimo motivo para acreditar no mal).

 

O "sucesso" nazi assentou na diluição da responsabilidade individual e na eliminação do juízo crítico. Estes foram substituídos pelo apego a uma comunidade idealizada e uniforme, ao serviço da qual era colocada a inteligência. A inteligência não foi eliminada mas apropriada. Deixou de ser criadora de autonomia moral para ser um mero instrumento de uma cadeia produtiva. É por isso que é importante reconhecer o mal como humano. Só isso nos recorda que a nossa responsabilidade individual não se pode esconder por detrás de um grupo, de uma moral que nos é oferecida ou do apelo a uma natureza que não controlamos.  

 

Por um lado, "desumanizamos" o mal para nos separarmos dele. Por outro lado, tende-se a promover a sua normalização através da ausência de capacidade de juízo crítico ou de auto-reflexão individual. Esta é substituída ou pela adesão a uma certa moral que nos é dada ou, no pólo contrário, pela diluição da nossa capacidade de pensar e juízo crítico numa hipotética natureza estranha à nossa vontade. Por vezes, estas adesões até são apresentadas como forma de rebelião (face a uma outra ordem ou natureza). Na verdade, não passam de uma mudança na ordem adoptada. Uma filiação identitária ou uma desculpa naturalista que nos permite evitar aquilo que é realmente difícil mas necessário: um processo de reflexão pessoal dominado por um juízo crítico. No entanto, só isto pode impedir a triste verdade de que falava Arendt: que a maior parte do mal é feito por pessoas que nunca se decidem sobre se querem fazer o mal ou o bem…