Uma despedida e um até sempre

Rui Lima Jorge

Estarreja, 27 Novembro 2004

 

Conclui-se amanhã o mais novo Congresso do Partido Comunista Português (PCP), partido em que militei desde três meses passados do 25 de Abril de 1974.

É o primeiro congresso do único partido de que fui membro (tirando uma breve mas entusiasmante passagem pelo MDP/CDE no período 1973/74) em que não sou chamado a participar, intervir, eleger e ser eleito.

Considerava-me já despedido – agora despeço-me eu.

Saio sem – e com – mágoa.

Sem mágoa porque neste Partido já não está a maior parte dos camaradas com quem abracei o 25 de Abril e a quem me abracei no 1º de Maio de 1974. Desgostaram-se, desiludiram-se, foram feridos, foram insultados – e eu com eles.

Com mágoa porque pude - com este Partido e para além dele, com os camaradas com quem partilhei avanços e recuos, vitórias e derrotas, vidas e mortes - travar combates que construíram a democracia no meu país e que fizeram dos portugueses um povo respeitado e que gostou de se respeitar.

Não entendo – e não aceito – que um partido que considerei internacionalista, fraternal e justo se restrinja hoje a uma ideologia e a uma prática nacionalistas, sectárias e discriminatórias.

Não entendo – e não aceito – que um partido em que sempre exprimi com liberdade e frontalidade as minhas opiniões me coarcte agora a liberdade, a frontalidade, a opinião.

Deste partido que agora está aí – despeço-me.

Àqueles – os burocratas, os censores - que tomaram conta do PCP em nome de uma cegueira perante o mundo que nos rodeia e uma realidade que muda avassaladoramente; àqueles que transformaram o Partido numa agência de emprego para os fiéis seguidores do pensamento único; àqueles que só pensam em defender-se da erosão do tempo e dos ventos da história - digo: até nunca mais.

Àqueles – dentro ou fora das fileiras do PCP - com quem partilhei (e partilho!) as nacionalizações de 75, as greves de 82, os comícios, as festas e as manifestações, as lutas nas empresas, nos sindicatos, nas comissões de moradores e de trabalhadores, o vinho e o pão nas searas da Reforma Agrária, as barricadas nas ruas, o canto e a poesia, os confrontos com patrões e governos, a exigência da cidadania plena, a fraternidade e a alegria e a pujança e a amizade e o abraço e as mãos dadas e a confiança de não termos chegado ao fim da história – digo: até sempre, camaradas.

Estarreja, 27 Novembro 2004

Rui Lima Jorge
Comunista