O humanismo não é ciência, é religião

John Gray, Público 11 Fevereiro 2007

 

 
 

O primeiro livro de John Gray editado em português - Al-Qaeda e o significado de ser moderno - terá deixado muitos dos seus leitores deprimidos. Esta sua obra - Sobre humanos e outros animais - é anterior mas o tom não se altera. Antes permite que compreendamos melhor por que considera que o Ocidente está indefeso face aos novos fundamentalismos. No fundo o autor não acredita no progresso, para além do progresso científico. Ou que as gerações futuras sejam mais felizes que as actuais ou as do passado. O prefácio à segunda edição, que abre edição portuguesa, é uma boa síntese dos seus raciocínios. Que levam à conclusão com que encerra o livro: "Os outros animais não precisam de um propósito na vida. Contraditoriamente, o animal humano não pode viver sem ele. Não poderemos pensar que o propósito da vida poderá passar pela sua simples observação?" Não surpreende pois que, pensando assim, este cientista político que começou na nova-direita, foi depois da nova-esquerda, que hoje acredita que não faz muito sentido falar das clássicas divisões esquerda direita, que é contra o neoliberalismo mas também contra o liberalismo na versão de Isaiah Berlim, se tenha aproximado das teorias meio ecologistas, meio científicas, de figuras como James Lovelock. Dizer que este livro que agora chega às bancas é provocador é, no mínimo, pecar por defeito.
 

Sobre Humanos e Outros Animais ataca as crenças impensadas das pessoas que pensam. O humanismo liberal detém hoje o poder avassalador outrora detido pela religião. Os humanistas gostam de pensar que têm uma visão racional do mundo; mas a sua crença central no progresso é uma superstição, mais afastada da verdade acerca do animal humano do que qualquer das religiões do mundo.
Fora da ciência, o progresso é simplesmente um mito. Esta observação parece ter produzido uma espécie de pânico moral em alguns leitores de Sobre Humanos e Outros Animais. Poderá alguém - perguntam-se certamente -, pôr em causa o artigo de fé central das sociedades liberais? Sem ele, não estaremos condenados a desesperar?
Como vitorianos tremendo ante a perspectiva aterradora de perderem a sua fé, estes humanistas apegam-se ao manto gasto da esperança no progresso. Hoje, os filósofos religiosos pensam mais livremente. Empurrados para as margens de uma cultura na qual a ciência reclama autoridade sobre todo o conhecimento humano, foram levados a cultivar a capacidade de duvidar. Por contraste, os crentes seculares - arrebatados pela sabedoria convencional da época - mostram-se presas de dogmas avessos à crítica.
A visão secular do mundo que prevalece é um pastiche de ortodoxia científica estabelecida e de crenças devotas. Darwin demonstrou que somos animais; mas - como os humanistas nunca se cansam de pregar - a forma como vivemos "apenas a nós nos diz respeito". Ao contrário de qualquer outro animal, dizem-nos, somos livres de viver como escolhermos. Contudo, a ideia de livre-arbítrio não vem da ciência. As suas origens encontram-se na religião - e não em qualquer religião, mas na fé cristã de que os humanistas tão obsessivamente escarnecem.
Na Antiguidade, os epicuristas especularam sobre a possibilidade de certos acontecimentos não terem causa; mas a crença de que os humanos se distinguem de todos os outros animais pela sua disposição do livre-arbítrio é uma herança cristã. A teoria de Darwin não suscitaria tanto escândalo se tivesse sido formulada na Índia hinduísta, na China taoista ou na África animista. De igual modo, é só nas culturas pós-cristãs que os filósofos se dedicam tão devotamente à reconciliação do determinismo científico com uma crença na capacidade exclusiva dos seres humanos em escolherem a maneira como vivem. A ironia do darwinismo evangélico é que usa a ciência para corroborar uma visão da humanidade que vem da religião.
Alguns leitores viram em Sobre Humanos e Outros Animais uma tentativa de aplicar o darwinismo à ética e à política, mas o meu livro nunca sugere que a ortodoxia neo-darwinista contém a compreensão última do animal humano. Em vez disso, o darwinismo é mobilizado estrategicamente com o objectivo de romper com a visão do mundo humanista que hoje prevalece. Os humanistas recorrem a Darwin para fundamentarem a sua cambaleante fé moderna no progresso; mas não há progresso no mundo que Darwin revelou. Uma visão autenticamente naturalista do mundo não deixa lugar à esperança secular.
Entre os filósofos contemporâneos, a ignorância da teologia constitui motivo de orgulho. Como resultado, as origens cristãs do humanismo secular raramente são compreendidas. Nos começos do século XIX, os positivistas franceses, Henri de Saint-Simon e Auguste Comte, inventaram a Religião da Humanidade: uma visão da civilização universal baseada na ciência que foi o protótipo das religiões políticas do século XX. Através do impacto que tiveram sobre John Stuart Mill, acabaram assim por transformar o liberalismo no credo secular que é hoje. Através da sua profunda influência sobre Karl Marx, ajudaram a moldar o "socialismo científico". Ironicamente, uma vez que Saint-Simon e Comte eram críticos ferozes da economia do laissez-faire, inspiraram também o culto do mercado livre global dos finais do século XX. Trata-se de uma história paradoxal e muitas vezes burlesca, que descrevi no meu livro Al-Qaeda e o Significado de Ser Moderno.
O humanismo não é ciência, mas religião - a fé pós-cristã pela qual os humanos podem fazer um mundo melhor do que aquele em que viveram até hoje. Na Europa pré-cristã, era ponto assente que o futuro seria como o passado. O conhecimento e a invenção poderiam avançar, mas a ética permaneceria em grande medida idêntica. A história era constituída por uma série de ciclos, sem sentido global. Contra esta visão pagã, os cristãos entendiam a história como uma narrativa de pecado e redenção. O humanismo representa a transformação da doutrina cristã da salvação num projecto de emancipação humana universal. A ideia de progresso é uma versão secular da crença cristã na Providência. Por isso era ignorada entre os pagãos da Antiguidade.
A crença no progresso tem ainda outra fonte. Na ciência, o crescimento do saber é cumulativo. Mas a vida humana, tomada como um todo, não é uma actividade cumulativa; o que é conquistado numa geração pode ser perdido na seguinte. Na ciência, o conhecimento é um bem puro; na ética e na política, tanto pode ser mau como bom. A ciência aumenta o poder humano - e amplifica as falhas da natureza humana. Permite-nos viver mais tempo e gozar de padrões de vida mais elevados do que no passado. Ao mesmo tempo, permite-nos dar livre curso à destruição - entre uns e outros e da Terra - a uma escala maior e sem precedentes.
A ideia de progresso assenta na crença de que o crescimento do conhecimento e a evolução das espécies andam juntos - senão hoje, pelo menos a longo prazo. O mito bíblico da Queda do Homem contém a verdade proibida. O conhecimento não nos torna livres. Deixa-nos como sempre fomos, presas de toda a espécie de loucuras. A mesma verdade pode ser constatada nos mitos gregos. O castigo de Prometeu, agrilhoado a uma rocha por ter roubado o fogo dos deuses, não foi injusto.
Se a esperança do progresso é uma ilusão, como - poderemos muito bem perguntar - deveremos viver? A pergunta pressupõe que os seres humanos só poderão viver bem se tiverem o poder de refazer o mundo. Contudo, a maior parte dos seres humanos que até hoje viveram não acreditaram que assim fosse - e muitos deles tiveram vidas felizes. A pergunta pressupõe que o fim da vida é acção; mas trata-se de uma heresia moderna. Para Platão, a contemplação era a forma mais elevada da actividade humana. Uma visão semelhante existia na Índia Antiga. O objectivo da vida não era a alteração do mundo. Era dele possuir uma visão correcta.
Hoje, isto tornou-se uma verdade subversiva, porque se interliga com a fatuidade da política. A boa política é uma ideia gasta e improvisada, mas, no começo do século XXI, o mundo está atulhado das ruínas grandiosas de utopias falhadas. Com a esquerda moribunda, a direita passou a ser o refúgio da imaginação utópica. O comunismo global deu lugar ao capitalismo global. As duas visões do futuro têm muito em comum. Ambas são monstruosas e felizmente quiméricas.
A acção política tornou-se um sucedâneo da salvação; mas nenhum projecto político pode libertar a humanidade da sua condição natural. Ainda que radicais, os programas políticos são expedientes - simples estratégias para enfrentar males recorrentes. Hegel escreveu algures que a humanidade só estará satisfeita quando viver num mundo que ela própria tenha criado. Pelo contrário, Sobre Humanos e Outros Animais defende uma ruptura com o solipsismo humano. Os seres humanos não podem salvar o mundo, mas tal não é motivo para desesperarem. O mundo não precisa de ser salvo. Felizmente, os seres humanos nunca viverão num mundo criado por eles próprios.