China - Humilhação e Jogos Olímpicos

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Orville Schell, Público 10.08.2008

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A ideia de que uma nação pode regressar à sua antiga grandeza ao celebrar a sua fraqueza pode parecer contraproducente. Afinal de contas, porque iria qualquer líder que tenta conquistar respeito a nível global constantemente relembrar o seu povo e o mundo das antigas humilhações sofridas pelo país? Por Orville Schell

 

O incidente
 

A neve caía num dia de Inverno em 1991 quando Lu Gang, um estudante chinês baixo e magro que recentemente concluíra o seu doutoramento em Física de Plasmas, entrou numa sala de aulas da Universidade de Iowa, pegou num revólver Taurus de calibre 38, e matou o professor Christoph Goertz, o seu orientador de tese, Robert A. Smith, membro do júri que avaliara a sua dissertação, e Shan Linhua, um outro estudante chinês de doutoramento, e seu rival.
De seguida, Lu dirigiu-se ao gabinete do coordenador do Departamento de Física e Astronomia, Dwight R. Nicholson, que estivera também no júri da sua tese de doutoramento, e disparou mais três tiros mortais. A seguir, foi até à Ala Jessup e exigiu falar com Anne Cleary, vice-reitora responsável pelos assuntos académicos. Quando ela saiu do seu gabinete, matou-a, e depois atirou na sua assistente de 23 anos. Finalmente, num auditório vazio, Lu encostou a arma contra a cabeça e suicidou-se.
Como teria um jovem, brilhante e trabalhador físico chinês, que aterrara nos Estados Unidos seis anos antes cheio de orgulho e esperança, chegado a um fim tão amargo é o tema de Dark Matter, o filme que se estreou recentemente nos EUA, dirigido pelo realizador Chen Shi-Zheng, ele próprio nascido na China. O actor Liu Ye é o protagonista, inicialmente idealista e ambicioso, depois humilhado e enraivecido (no filme aparece com o nome de Liu Xing); Aidan Quinn é o arrogante orientador da faculdade (fazendo de Christoph Goertz); e Meryl Streep é uma bondosa, se bem que ingénua, benemérita da universidade que recebe estudantes chineses.
Dark Matter pode à primeira vista parecer apenas mais um filme sobre assassínios em série num campus universitário norte-americano, embora com um toque chinês. Quando Liu Xing chega à Universidade de Iowa proveniente de Pequim, proclama com optimismo "a sua sorte por chegar à América, Meiguo, O Belo País. Possamos todos alcançar aqui o nosso sonho! Vou resolver o problema da Matéria Negra, vencer o Prémio Nobel, e casar com uma rapariga americana de olhos azuis!"
Mas gradualmente convence-se de que os professores conspiram para atrasar o seu doutoramento e negar-lhe o legítimo reconhecimento como académico. A sua paranóia aumenta quando o júri recusa aceitar a sua tese até ele refazer alguns dos cálculos, impossibilitando assim que ganhe o prémio da melhor dissertação. No final do filme, o seu profundo sentido de humilhação leva-o a um estado psicótico, e num acesso de raiva mata os professores.
Mas o que dá a Dark Matter um significado mais abrangente é o uso que o realizador faz deste caso para explorar - indirectamente - algumas importantes dinâmicas entre a China e o Ocidente: o profundo sentimento de injustiça histórica da China face às nações estrangeiras, e a maneira como os seus (muitas vezes frustrados) esforços para conseguir ser aceite entre os mais poderosos do mundo têm exacerbado tais sentimentos. No passado, o sentimento de ser insultado nasceu de acontecimentos como a Guerra do Ópio e a ocupação chinesa; mais recentemente, após as manifestações tibetanas durante os preparativos para os Jogos Olímpicos.
Ao contar a trágica história de um estudante chinês que tenta completar um doutoramento numa prestigiada universidade americana, o filme sugere uma mais vasta parábola sobre a ambivalência da China em relação aos EUA. Mas, tal como me explicou recentemente o realizador, ele vê o protagonista do filme como a expressão, numa forma extrema, "da complexidade das actuais relações entre a China e o mundo exterior". Liu Xing é um paradoxo. Considera-se superior, devido à antiguidade e profundidade da civilização chinesa. Mas, ao mesmo tempo, e apesar de todo o seu extraordinário desenvolvimento e mudança, dado que a China continua atrás dos Estados Unidos, ele sente-se inseguro.
O que interessa a Chen é a forma como a disposição inicial do seu anti-herói para venerar e se submeter às autoridades académicas americanas se transformou no seu oposto, de tal maneira que no fim, após a sua dissertação ser rejeitada, ele vê-os como opressores.
Mas, mesmo assim, o tratamento dado por Chen e pelo co-autor do argumento, Billy Shebar, ao anti-herói é surpreendentemente benevolente. O próprio Chen foi estudante universitário nos EUA na década de 80, e desde então - como reconhecido encenador de óperas, quer chinesas quer ocidentais - tornou-se um dos artistas que têm conseguido cruzar o abismo cultural entre a China e o Ocidente. Compreende as sensibilidades que giram em torno de questões que envolvem o insulto, a humilhação e o perder a face na China, especialmente quando está presente a arrogância estrangeira. E no filme, o orientador de Liu Xing é a arrogância incarnada. Quando Liu chega ao seu laboratório, diz-lhe presunçosamente: "Bem, esteja à vontade para me questionar sempre que quiser. Mas lembre-se de que eu tenho sempre razão!"
Quando um assistente lembra que o seu pupilo tem passado "uma data de directas" a fazer pesquisa para o professor, este responde com desprezo: "Vá lá! Estes miúdos ficam contentes com qualquer trabalho que eu lhes dê. Vêm de lugares onde a astrologia é considerada uma ciência e as casas de banho um luxo."
Diálogos como este imitam no filme uma espécie de condescendência que historicamente tem marcado muitas relações entre o Ocidente e a China e que lentamente acabou por formar uma espécie de "matéria negra" que exerce uma força poderosa, difícil de detectar.
A questão que o cineasta tenta explorar não é apenas pessoal, mas sim uma mais alargada - a questão da sensibilidade da China face ao domínio e críticas por parte de estrangeiros. Neste particular, o filme é brilhante na forma de mostrar como qualquer sugestão de superioridade, ou mesmo condescendência, de estrangeiros para com a China pode cruzar-se com o seu próprio histórico sentimento de vitimização e insegurança e criar assim uma mistura volátil.
"Nós, chineses, carregamos com o peso da nossa história e a questão da humilhação pelos ocidentais está sempre inconscientemente dentro de nós", diz-me Chen. "Assim, somos sensíveis a qualquer desconsideração e muitas vezes temos uma reacção brusca ao que julgamos ser um tratamento desleal ou injustiças. A um nível emocional, não conseguimos desligar o tratamento no presente com insultos do passado, derrotas, invasões e ocupações por estrangeiros. Há algo no nosso ADN que desperta respostas automáticas, e por vezes extremas, a críticas ou afrontas."
"Ao longo dos tempos, os chineses têm tido apenas uma forma de olhar para os estrangeiros", lamentou, há quase 75 anos, Lu Xun, o mais famoso dos ensaístas da China. "Ou olhamos para eles como deuses ou como animais selvagens." Tal como escreveu Peter Hays Gries no seu ponderado livro China's New Nationalism: Pride, Politics, and Diplomacy, quer queiramos ou não, "O Ocidente é fundamental para a construção da actual identidade da China; transformou-se no alter ego da China."

Um século de humilhações

Um elemento particularmente importante na formação da identidade da China moderna tem sido a herança da "humilhação" do país às mãos de estrangeiros, começando com a derrota da China na Guerra do Ópio em meados do século XIX e o tratamento vergonhoso dado aos chineses na América. O processo atingiu o seu apogeu com a bem sucedida industrialização do Japão e a subsequente invasão e ocupação da China durante a II Guerra Mundial, que em muitos aspectos foi ainda mais devastadora psicologicamente do que as intervenções ocidentais, dado que o Japão era uma potência asiática que conseguira modernizar-se, enquanto a China falhara.
No início do século XX, uma nova literatura, acompanhada de uma nova narrativa histórica, afirmou-se à volta da ideia de "bainian guochi", ou seja, "100 anos de humilhações". Ao pegar na sua própria vitimização como tema e tornando-a um elemento fundamental da evolução da sua identidade colectiva, a China conseguiu que certos traços se expressassem uma e outra vez sempre que respondia sob pressão ao mundo exterior. Sublinhar a história do país como vítima de agressões estrangeiras levou os líderes chineses a confiarem no que Gries chama "a autoridade moral do sofrimento passado". De facto, o sofrimento da China às mãos de estrangeiros tornou-se um troféu, especialmente durante a década de 1960, quando países não ocidentais competiram entre si para parecerem o mais "oprimido" pelo imperialismo.
Como resultado dos termos insultuosos do Tratado de Versalhes de 1919, pelo qual o Ocidente medrosamente cedeu ao Japão as concessões alemãs na China, uma expressão, "wuwang guochi" - "Nunca esqueçamos a nossa humilhação nacional" -, tornou-se um slogan comum na China. De facto, ignorar o falhanço nacional da China acabou por ser considerado como não patriótico. Desde então, os historiadores e os supervisores ideológicos chineses nunca deixaram de explorar os supostos sofrimentos passados da China "para servir as necessidades políticas, ideológicas, retóricas e/ou emocionais do presente", segundo as palavras do historiador Paul Cohen.
Sun Yat-sen, por exemplo, em 1924 descreveu a China como sendo "um monte de areia" que tinha "sofrido várias décadas de opressão económica por parte das potências estrangeiras" e, "em consequência, disso, se vê transformada, por toda a parte, numa colónia...". No seu livro O Destino da China, Chiang Kai-shek escreveu:
"Ao longo dos últimos cem anos, os cidadãos de todo o país, sofrendo sob o jugo de tratados iníquos que concediam aos estrangeiros 'concessões' e estatuto extraterritorial na China, foram unânimes na sua exigência de que as humilhações nacionais fossem vingadas, e que o Estado se tornasse forte."
E quando a República Popular da China foi fundada em 1949, Mao Zedong proclamou a famosa frase: "Não mais a nossa nação será sujeita ao insulto e à humilhação. Nós... erguemo-nos."
Em 1997, quando Hong Kong abandonou o estatuto de colónia britânica e regressou à soberania chinesa, o Partido Comunista voltou ao tema da China como vítima para tentar encorajar um maior nacionalismo. O secretário-geral Jiang Zemin repetidamente lembrou ao mundo que "a ocupação de Hong Kong foi o epítome da humilhação que a China sofreu na História recente". Desde então, muita da retórica sobre vitimização tem-se concentrado no Japão, que ocupou brutalmente a China durante a II Guerra Mundial e ainda não mostrou total arrependimento pelas suas acções.
A ideia de que uma nação pode regressar à sua antiga grandeza ao enfatizar, até mesmo ao "celebrar", a sua fraqueza pode parecer contraproducente. Afinal de contas, porque iria qualquer líder que tenta conquistar respeito a nível global constantemente relembrar o seu povo e o mundo das antigas humilhações sofridas pelo país? Talvez os dirigentes chineses (tanto comunistas como nacionalistas) pensem que se os chineses tomassem suficiente consciência, e mesmo vergonha, da sua fraqueza, seriam impelidos a erguer-se e a reclamar a sua grandeza nacional.
Em todos os acontecimentos desde 1949, uma significativa parcela dos esforços chineses para criar uma nova identidade têm-se baseado no sonho de restaurar a integridade territorial do país, que os patriotas consideram ter sido "fenqua", ou seja, "cortado como um melão" por incursões estrangeiras. O sonho era reunificar a China como um Estado multiétnico constituído por han (chineses do Centro), man (da Manchúria), meng (mongóis), hui (muçulmanos) e zang (tibetanos), bem como trazer de volta ao seio da "pátria sagrada" as partes do antigo império chinês que se tenham perdido para os poderes imperialistas ou que quebraram os laços durante tempos de fraqueza. (O que inclui Hong Kong, Macau, Taiwan, as ilhas Spratly no mar do Sul da China, e as ilhas Diaoyutai perto do Japão. E, claro, também significa manter o Tibete e Xingiang, cujas populações há muito desejam a independência.)
Tal como o professor William A. Callahan recentemente escreveu, apesar de 50 anos de revolução maoista - quando "anticomunismo" era muitas vezes considerado "antichinês" -, e depois quando a China começou a surpreender o mundo com o seu recente sucesso económico, a narrativa de nacional-humilhação continua a ser cuidadosamente reproduzida em livros, museus, exposições, filmes, enciclopédias, jornais, dicionários, gravuras e selos comemorativos.
Em 2001, o Congresso Nacional do Povo até aprovou uma lei proclamando um "Dia Nacional da Humilhação". (No entanto, foram propostas tantas datas históricas que os delegados não conseguiram chegar a acordo e, assim, nenhum dia foi designado - um dos principais candidatos é agora 18 de Setembro, o dia de 1931 em que o Japão iniciou a invasão da Manchúria.) Para lembrar ao mundo que a China continua a considerar-se irritada e com direito a desculpas, os porta-vozes do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês frequentemente descrevem acções incómodas de outros países - por exemplo, o atentado bombista na Embaixada da China em Belgrado em 1999 - como "ferindo os sentimentos do povo chinês".
Seria tentador relativizar tal linguagem como retórica vazia mas, tal como com tanto do que é dito na China, tais palavras codificadas continuam a ressoar no reservatório de sentimentos exemplificado por slogans como "O povo chinês não será incomodado; a raça chinesa não será insultada!". E quando, em 2001, um caça chinês F-8 se despenhou após ter tocado numa asa de um avião-espião norte-americano EP-3 (que teve que efectuar uma aterragem de emergência na ilha de Hainan), os chineses recordaram de novo o poder americano e a sua história de ingerência na sua soberania. Seguiram-se manifestações aparentemente espontâneas, bem como ataques a missões diplomáticas dos EUA e dilúvios de indignação na Internet - totalmente permitida pelo partido.
As referências ao "'Século de Humilhações' tanto reflectem como intensamente definem as relações da China com o Ocidente hoje", escreve Peter Gries. "Ao evocar as pessoas, os acontecimentos e os símbolos do encontro inicial da China moderna com o Ocidente, os chineses regressam continuamente a este drama não resolvido..."
E no entanto, "os sentimentos de humilhação continuam vivos", conclui. "Nem a vitória do Partido Comunista sobre o Partido Nacionalista na Guerra Civil, nem a declaração de 'Libertação' em 1949 parecem ter conseguido exorcizar o passado."

Tibete

Dark Matter tinha data de estreia marcada para a Primavera de 2007, mas foi adiada devido a mais um tiroteio num campus universitário americano, desta feita na Virginia Tech. O filme apenas chegou aos cinemas nesta Primavera, altura em que os tibetanos, esperando conseguir concessões dos chineses - que estavam cada vez mais ansiosos de que os Jogos Olímpicos em Pequim não fossem manchados por boicotes devido ao Darfur e à Birmânia -, começaram os seus protestos. Como escreve Nicholas Kristof na introdução de China's Great Leap: "O mundo tem uma nova ferramenta para tentar obter um melhor comportamento por parte da China", e, no caso do Tibete, o mundo usou-a. Em breve, tibetanos no exílio e os seus apoiantes estrangeiros juntaram-se na ameaça ao transporte de país para país da tocha olímpica chinesa, que passou a ser encarada mais como símbolo da República Popular da China do que dos Jogos Olímpicos. Os transportadores da tocha foram perseguidos por manifestantes que denunciavam o que consideram ser a ocupação forçada do Tibete pela China.
E se patriotas de outros países também se sentiriam insultados ao verem um tão grande símbolo da sua nacionalidade sob ataque, já a resposta de muitos chineses a estes confrontos revelou quão sensível a China continua a ser face ao insulto do estrangeiro. O que os chineses no seu país e no estrangeiro decidiram que estavam a ver na televisão não era tibetanos oprimidos à procura de uma reparação de sofrimentos, mas sim a China cercada e de novo diminuída da forma mais pública possível.
A procura inquieta por parte da China de uma personalidade mais confiante, menos sensível, tem-se paradoxalmente revelado mais complicada devido a outras feridas não directamente relacionadas com ataques estrangeiros: durante a maior parte dos últimos 100 anos os próprios chineses têm-se empenhado numa série de assaltos à sua história e cultura. Estas autocríticas, frequentemente muito duras, tiveram início nas primeiras décadas do século XX, quando reformadores chineses começaram a denunciar a tradicional cultura confuciana, acima de tudo porque esta parecia tê-los deixado tão fracos perante a superioridade tecnológica do Ocidente.
Pelos anos 30 e 40, estes ataques começaram a virar-se para os nacionalistas. Tendo adoptado uma nova identidade que combinava elementos tanto do Oriente como do Ocidente, Chiang Kai-shek e a sua mulher cristã, que estudara na Universidade de Wellesley, nos Estados Unidos, foram criticados por serem demasiado ocidentalizados e firmes aliados da América. Depois de Chiang ser derrotado, de Mao chegar ao poder, e de o Partido Comunista Chinês passar três décadas a tentar, com imenso custo de vidas humanas, criar uma nova identidade revolucionária chinesa, chegou Deng Xiao Ping para protagonizar mais outro acto de demolição, desta feita da próprio revolução de Mao.
O cancelamento destas sucessivas tentativas de auto-reinvenção deixou os chineses com um fraco sentido de orientação cultural ou política. O país tende a oscilar de uma experiência para outra, procurando refúgio numa série de reformas de grande envergadura, mas nunca definitivas. Talvez por isso seja compreensível que um mais forte sentimento de autoconfiança cultural e política tenha continuado ausente. Assim, em parte chocada, em parte desapontada, a China respondeu às manifestações contra a tocha olímpica com violência, rejeitando qualquer sugestão de que as suas acções poderiam ter contribuído para, e muito menos originado, as exigências tibetanas.
Os protestos acabaram por lançar uma luz sobre uma China que não era aquela que a maior parte dos chineses esperava ver em destaque durante a preparação para os Jogos. Controlos policiais à moda antiga ainda mais apertados e a retórica recuperada da revolução maoista fizeram a China parecer antiquada, quando mais precisava de parecer moderna. (Por exemplo, o secretário do Partido para a Região Autónoma do Tibete, Zhang Jingli, foi citado no jornal Tibet Daily chamando ao Dalai Lama "um lobo disfarçado numa túnica de monge; um monstro com face humana mas o coração de uma besta".) Ataques aos críticos da China e às cadeias internacionais como a CNN e a BBC, que noticiaram os incidentes no percurso da tocha à volta do globo, inundaram a Internet. Em cidades como Seul, capital da Coreia do Sul, os manifestantes começaram a ser insultados, e mesmo atacados, por contramanifestantes chineses.
O surpreendente é que muitos dos mais furiosos contramanifestantes eram jovens chineses, nascidos já na era pós-Mao. Com mais estudos e mais conhecedores do mundo do que os chineses mais velhos, esperar-se-ia que estariam imunes à síndrome da China como vítima. Mas, talvez porque também eles são produto da propaganda do Partido, muitos deles tornaram-se tão, ou talvez até mais, nacionalistas do que os seus pais e avós. Mas o que tornou estas manifestações contra a tocha olímpica uma tal afronta foi a forma como elas se intrometeram mesmo na altura em que os chineses se tinham permitido imaginar que a sua identidade nacional poderia efectivamente transformar-se de vítima para vitoriosa, graças à alquimia dos Jogos Olímpicos.
Em vez disso, mesmo antes de começar a competição, e como nota Xu Guoqi, autor do recente livro Olympic Dreams: China and Sports, 1895-2008, "através da sua cobertura e tratamento do percurso da tocha até Pequim, o Ocidente parece ter recordado aos chineses que eles continuam a não ser seus pares e que ainda não são suficientemente bons".

Os Jogos

A ironia de tudo isto, claro, está em que há mais de dois séculos que a China não era tão "igual". De facto, quem visitasse Pequim enquanto se aproximavam os Jogos Olímpicos teria que ficar assombrado com a determinação da cidade em atingir um objectivo. Quem chegasse à China ficaria certamente impressionado com o magnífico novo aeroporto da capital, desenhado por Norman Foster e inaugurado em Fevereiro; ou com o novo Parque Olímpico de Pequim, onde se situam o impressionante estádio "Ninho de Pássaro" da autoria de Herzog e DeMeuron e o igualmente fascinante Centro Nacional de Natação, transparente e com um desenho baseado em bolhas, conhecido como "Cubo de Água". Os sombrios blocos de apartamentos de estilo soviético, as desordenadas casinhas com quintal e as ruas nuas que conheci na Pequim dos anos 70, durante a Revolução Cultural, desapareceram totalmente. Agora, fica-se subjugado pelo novo "desenvolvimento", ou "fazhan", uma palavra que projecta conotações quase religiosas nesta nova China cujos líderes conseguiram efectivamente promover uma revolução económica que transformou o país. Que tantas pessoas consigam agora imaginar um futuro melhor explica a durabilidade do regime do Partido Comunista.
Pequim parece determinada em tornar estes Jogos tão magnificamente dotados de novos equipamentos e tão imaculadamente organizados que eles se tornem inesquecíveis. De facto, quando se fala com chineses é impossível não notar os sentimentos de orgulho e patriotismo que estes Jogos têm gerado. Quase todos com quem falei, quer simples cidadãos ou altos dirigentes, parecem sentir algum grau de identificação com este "dashi", ou "grande empreendimento", como os chineses se costumam referir aos esforços das dinastias confucianas para obter e manter o "mandato do céu", que legitima o direito de um imperador reinar.
Após um século e meio de fome, guerras, fraqueza, ocupação estrangeira e extremismos revolucionários, um número crescente de chineses - tanto na China como fora dela - olhou para os Jogos como o há muito tempo esperado e simbólico momento em que o seu país conseguiria por fim escapar aos velhos estereótipos: ser o indefeso "parente pobre da Ásia"; um "gigante indefeso" sob ataque; a vítima de uma mal calculada Revolução Cultural; a terra ignorante onde em 1989 o Exército de Libertação Popular disparou sobre "o povo". De uma enorme e simbólica penada, a aura olímpica prometia ajudar a limpar o tão manchado passado histórico da China; a ultrapassar a sua herança de vitimização e de humilhação; e a permitir que o país surgisse renascido - em linguagem contemporânea dir-se-ia "com uma nova marca" - no palco mundial como a grande nação que já foi, e que há tanto tempo deseja voltar a ser.
Quando perguntei a Chen Shi-Zheng se com o seu filme pretendia traçar alguns paralelismos entre o presente e os Jogos, respondeu: "Não estou envolvido nos Jogos, mas é claro que reflicto muito sobre eles. Depois de anos da história moderna que, devido à colonização e ao domínio estrangeiro, deram origem a um certo sentimento de vergonha, os Jogos apresentaram-se como uma oportunidade para a China mostrar ao mundo as suas forças e grandeza. O protagonista do meu filme incarna certas características dos chineses, uma pessoa que é ambiciosa e lutadora, mas com muita falta de confiança. Quando é reprovado na defesa oral da sua dissertação, a dor que sente é insuportável."
Assim, da mesma forma que as orais de Liu Xing, os Jogos foram antecipados como um acto de catarse num prolongado e agonizante drama em que a China finalmente alcançaria a seu quase mítico destino: a sua busca de "fugiang", "riqueza e poder". Tal como o anti-herói de Dark Matter, que se imagina a regressar triunfante à China coberto de prémios e com o seu doutoramento americano e a cair nos braços dos seus orgulhosos pais e país, também muitos chineses se atreveram a pensar que a China, resplandecente com medalhas olímpicas e uma nova auto-estima, poderia ficar mais próxima de cumprir o seu há muito negado sonho de grandeza.
Foi nesta atmosfera de expectativa e esperança que os protestos tibetanos se intrometeram. "Os chineses pensaram: 'Este é o nosso momento!", diz-me Chen Shi-Zheng. E depois surgem as manifestações tibetanas, que os fizeram sentir como se estivessem de novo a ser contrariados.
Dados os tons de desapontamento com que muitos chineses olharam para a revolta tibetana, não admira que os manifestantes em solo chinês, o movimento tibetano no exílio e mesmo o próprio Dalai Lama tenham rapidamente sido vistos como traidores, criaturas a soldo de forças estrangeiras conspirando para roubar o prémio da China - o seu novo estatuto mundial - mesmo ali ao seu alcance, tal como o protagonista de Dark Matter passou a acusar o seu rival chinês de ter traído o seu chinesismo ao vender-se aos mestres estrangeiros, os professores norte-americanos, e negando-lhe assim o prémio que lhe era devido.
O que pode parecer estranho aos estrangeiros que tentam perceber esta questão é que, apesar dos espantosos feitos da China, ainda poucos chineses - pelo menos entre os que conheço - se convenceram do sucesso da China ou aderiram a uma nova crença nacional da China como nação de primeiro plano. Para conseguirem isso, creio que teriam primeiro que acreditar que, de facto, já têm sucesso e poder; que o mundo já começou a olhar para o país deles com um crescente sentimento de assombro, até mesmo de inveja; e que o passado, efectivamente, já lá vai.
Tal como Xu Guoqi sugere em Olympic Dreams, as medalhas olímpicas podem não ser a resposta para o que os preocupa. "A China", opina Xu, "está obcecada com ganhar medalhas de ouro em grandes competições internacionais para demonstrar o novo estatuto da China como uma potência económica e política..."
Apesar de a ânsia chinesa em obter medalhas de ouro nos Jogos coincidir claramente com o caminho da nação em direcção à internacionalização e a conseguir um novo estatuto no mundo, a mentalidade do Estado face às competições continua a reflectir uma mistura da confiança no que os chineses podem fazer e do prolongado complexo de inferioridade do país.
Xu sustenta que Pequim tem usado a chamada estratégia da medalha de ouro para demonstrar o aumento de poder e riqueza na China, mas que o sistema político que o Partido Comunista tem tentado legitimar através do desporto e outros meios não poderá produzir uma nação forte e saudável enquanto os seus cidadãos forem forçados e abdicar da sua independência e até da sua dignidade pessoal.
Quando se trata de aceitar críticas estrangeiras em relação a assuntos como os Jogos Olímpicos, Tibete, Darfur e Birmânia, os dirigentes chineses mostram-se invariavelmente impenetráveis. As suas reacções defensivas sugerem que as suas memórias de histórica fraqueza e humilhação ainda ardem com intensidade. E se críticas justas não devem ser caladas só porque os líderes chineses as consideram desagradáveis, também devíamos, enquanto estrangeiros em contacto com a China, ter mais em mente que muita da matéria negra gerada pela história ainda flutua no universo que nos é comum.
Quando reagimos aos acontecimentos da actualidade, tendemos a esquecer, talvez por sermos tão anistóricos, quão profundamente estamos envolvidos na forma como a China aprendeu a conhecer e a olhar para o mundo moderno. Afinal de contas, fazemos todos parte das nossas próprias histórias. Mas, no caso da China e do Ocidente - e o Japão também deve ser aqui incluído -, fazemos também parte inextricável das histórias dos outros. Esta longa relação histórica criou uma tensão psicológica ainda muito forte que está sempre presente quando um país se relaciona com o outro. E assim, apesar de nos últimos tempos a China ter chegado mais perto do que nunca de criar condições que lhe permitam escapar ao nosso passado desequilibrado, é importante perceber que os seus dirigentes e população em geral ainda são sensíveis a velhas formas de responder ao mundo que os rodeia.
E se muitas vezes pensamos que já escapámos às limitações desta história - ou que esta história já acabou -, seria ingénuo esquecer que continuamos a fazer parte da equação. Quer escolhamos reconhecê-lo ou não, a América continua a ter um poderoso efeito gravitacional psicológico sobre a China, que decorre tanto do passado como da actual política externa.
Um filme como Dark Matter ajuda-nos a perceber mais claramente a complexidade deste relacionamento, porque consegue penetrar nos recantos psicológicos das nossas complexas relações mais profundamente do que qualquer tipo de análise política.
Se existe uma certeza no meio de todas estas incertezas, é que, dado que não existem relações bilaterais mais importantes no mundo actual do que aquelas entre os Estados Unidos e a China, é crucial percebermos o mais que pudermos acerca desta complexidade quase infinita. O absorvente filme de Chen Shi-Zeng ajuda-nos a olhar para as complexas e por vezes sombrias fontes de emoções entre o Oriente e o Ocidente que, devido às suas profundas origens históricas, continuam, numa miríade de formas destrutivas, a introduzir-se no nosso presente colectivo.