A República Popular do Consumo
 

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Francisca Gorjão Henriques, Público, 13 Julho 2008

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A casa tem 105 metros quadrados, mas o pequeno Wang Zhe, apesar do seu curto ano e meio, tem brinquedos suficientes para cobrir o chão todo. Pelo menos, é o que diz o pai, Wang Zhong Nian. No seu tempo não era assim. Mas agora a família ganha o suficiente para ter comprado já um apartamento, um carro e satisfazer os desejos do seu único filho. Wang Zhong Nian diz que a mulher também gosta de dar outros mimos: "Está sempre a comprar-lhe roupa."

A família não quis abrir as portas de casa - estão lá os pais dele que não confiam em ocidentais, confessou - e marcou o encontro no Starbucks da Lido Place, uma esplanada cheia de estrangeiros que aproveitam o sol de sábado à tarde para passear as crianças, e de chineses com carros novos e malas Louis Vuitton. Um grupo de música ao vivo lança canções que se poderiam ouvir em qualquer parte do mundo, enquanto um repuxo de água refresca o ar, aquecido pelo barbecue. Um cenário de felicidade adocicada. E recente. A classe média chinesa - entre 100 e 150 milhões de pessoas - é uma novidade com uma década, o tempo suficiente na China para várias mudanças que no Ocidente levaram 50 anos.
O ordenado de Wang Zhong Nian, 32 anos, e da mulher, Jiang Tao, 29, chega para sustentar toda a família e ajudar a pagar as despesas dos pais. São 20 mil yuans por mês (1868 euros). Ele espera vir a ganhar mais quando tiver o seu próprio negócio de venda de produtos industriais, maquinaria estrangeira. "Acho que vou conseguir dentro de dois ou três anos." Já conhece o meio porque é gerente de vendas. Jiang Tao contribui para o orçamento familiar dando aulas de inglês. Mas dela pouco ouviremos, porque Wang Zhe ainda não parou de chorar.
Não é fácil integrar a expressão classe média no léxico de um regime que foi criado a partir do princípio da abolição de classes. Para não ferir sensibilidades políticas, tornou-se mais frequente empregar termos como "estrato de rendimento médio", "grupo de rendimento médio" ou apenas "estrato médio", escrevia o China Daily (jornal anglófono oficial) num artigo de 2004, onde era referido que o tema tinha saltado das notícia dos jornais para os documentos do Governo. E definia classe média como "um grupo de pessoas com rendimentos estáveis que podem comprar casas, carros e pagar os custos da educação e das férias".
Fim do idealismo
No bar panorâmico de um hotel de cinco estrelas de Pequim, a escritora e editora de revistas de lifestyle Annie Wang, autora do best-seller People's Republic of Desire, sentencia: "O idealismo desapareceu na China e as pessoas vivem de uma forma muito mais prática." A frase é acompanhada de um aviso: "Não fique, de forma nenhuma, com a ideia de que isto está errado. Elas merecem-no absolutamente depois de todas as lutas ideológicas e do mau bocado que passaram. Agora estão a ter uma vida boa, têm amas, têm motoristas. A minha mãe nunca teve a vida que eu tenho. Esteve separada do meu pai 11 anos porque não tinha autorização para se mudar para Pequim [devido ao sistema de registo de residência hukou]."
Que vida tem Annie Wang? Trabalha no centro de Xangai, onde tem um apartamento; o marido vive com o filho nos arredores, um sítio mais calmo que ela visita ao fim-de-semana. Faz questão que as suas revistas passem a mensagem de que "quem as faz não são só cabras e gays, podem ser mães trabalhadoras e competentes".
Recorda que em criança passava quatro horas numa fila para comprar peixe que vinha enrolado num jornal - era do grupo das crianças com sorte, porque vivia numa zona da cidade onde até era possível comprá-lo. "Agora os jovens não sabem o que isso é e ainda bem."
As reformas económicas que Deng Xiaoping introduziu há 30 anos mudaram tudo. Xangai, Pequim, Shenzhen, Guangzhou, Wuhan, Chongqing... A abertura criou uma camada entre as centenas de milhões de camponeses pobres e os novos ricos, que aproveitaram as suas ligações ao regime para desenvolver negócios lucrativos, nem sempre transparentes. O dogma antimaterialista não se tem de pé. Os chineses são consumidores frenéticos.
A pergunta que habitualmente se coloca a seguir é: o regime irá acompanhar a abertura com mudanças políticas? As respostas variam entre os dois extremos.
Por um lado, o regime passará a contar com uma larga camada da população que está feliz com a vida que leva e a quem, aparentemente, não falta nada. Por outro, também há quem defenda que esta nova geração de chineses, com mais estudos e mais habituados a obter o que desejam, leve a um aumento da pressão para que lhes sejam dadas outro tipo de escolhas, como por exemplo, a eleição dos seus líderes. Em Janeiro, foram membros da classe média que saíram à rua em Xangai contra o alargamento da rede do Maglev, que iria afectar os seus bairros, criando ruído e desvalorizando os seus terrenos.
Outras das interrogações: o planeta tolera as consequências deste aumento de produção?
Annie Wang não dá hipótese. "Não venham dizer aos chineses que eles não podem andar de carro e que fiquem com as bicicletas. Eles têm que passar por isso." E é isso que explica que todos os dias se vendam mil carros em Pequim.
A escritora tem que passar por outras coisas. Decidiu começar a escrever em inglês porque os seus livros estavam a ser usados pelo público chinês como "uma bíblia" para o que deveriam comprar. Annie quis fazer uma sátira, "ao estilo Mark Twain", e acabou por se tornar um guru da moda. "Acham que se usarem aquilo [que as suas personagens usam] estão in, ou que se forem àqueles sítios estarão in." "As pessoas não querem uma bagagem cultural. Os editores chineses não querem que se toque em política e querem que eu escreva sobre a minha vida na América [onde viveu vários anos], os meus encontros com pessoas ricas, as minhas idas ao Soho em Nova Iorque."
Olhar para as celebridades
Quem ganha a vida à caça das novas tendências no país, como Dirk Jehmlich, da Trendburo, sabe que para decidir qual a próxima aposta é preciso seguir as celebridades chinesas. "Temos de olhar para artistas, designers, arquitectos; e também chineses que regressam do estrangeiro e que têm mais experiência de consumo, desenvolveram o seu próprio estilo de vida e tornaram-se líderes de opinião", afirma este alemão, que em 2006 montou a sucursal da empresa em Pequim.
No openspace da Trendburo, por trás de uma longa mesa de vidro, está um placard cheio de fotografias. São momentos do quotidiano de jovens chineses. São documentos importantes para saber o que está ao virar da esquina à espera de ser sugado pelo mercado.
Dois anos foi tempo suficiente para Jehmlich chegar a uma conclusão: os consumidores gostam de produtos públicos, que são símbolos do seu (novo) estatuto. Carro, cartão de crédito, cartão de sócio de um country club, apartamento, notas na carteira (não necessariamente por esta ordem). "A forma como se vêem depende muito da forma como acham que estão a ser vistos. Não serão bem sucedidos se a sua comunidade não os reconhecer como tal." É mais uma herança do confucionismo, da sociedade hierarquizada que formou. "É a razão pela qual a Ásia não é criativa. Não parte do princípio de que somos todos iguais e é suposto seguirmos aquele que está à frente. Por isso temos de mostrar aos outros os símbolos do status. As pessoas pensam sempre em termos de hierarquias: como se diferenciar dos que estão na de baixo e como conseguir chegar à de cima."
Um dos fenómenos que tem contribuído para o aumento da classe média é a mobilidade dos camponeses para os centros urbanos. Nos próximos dez anos é previsível que haja 100 cidades na China com mais de três milhões de habitantes, e 700 milhões de pessoas com um razoável poder de compra (algo em que o Governo tem estado disposto a apostar para garantir que o crescimento da economia se mantém).
Há estimativas que apontam para que, em 2025, metade da população urbana seja de classe média, com os consumidores na faixa etária dos 25 aos 44 anos.
No ano passado, os números oficiais revelavam que o "novo estrato social" já contribuía com cerca de um terço do total de impostos pagos na China. O sector privado, que em 1979 representava 0,1 por cento do PIB, representava no ano passado um terço, ou mais, em algumas regiões.
"Pobreza não é socialismo. Ser rico é glorioso", afirmou Deng Xiaoping, para quem a reforma económica da China foi a "segunda revolução". É o que estão a tentar fazer todos os que podem. Ou quase todos. As ruas de Pequim têm muito a dizer nestes últimos tempos. Toda a cidade vibra. E não são apenas os pneumáticos das ininterruptas construções que fazem tremer o chão.