A ofensiva dos (a)teísmos

 

Luís M. Faria (Expresso 23 Dezembro 2006)

 

11 de Setembro foi um triunfo da religião? Quando muito, foi o triunfo momentâneo de um modo idiossincrático de entender uma determinada religião. Um golpe espectacular que poderá ter implicado, a longo prazo, a perda de uma guerra na qual esse lado (em termos gerais, o dos fundamentalistas islâmicos) até havia conseguido algumas vantagens importantes nos anos precedentes: a primeira bomba atómica muçulmana, o controlo efectivo de um ou outro país, etc. Boa parte disso esvaiu-se ou perdeu significado após os ataques em Nova Iorque e Washington, apesar das asneiras que têm caracterizado a gestão americana no Afeganistão e no Iraque. Digamos que o Ocidente - outro termo perigosamente genérico, mas operativo q.b. - ficou avisado e começou, bem ou mal, a tomar providências.

Em todo o caso, o 11 de Setembro foi aproveitado por muitas agendas diferentes. Os adversários da religião, por exemplo, viram uma oportunidade de marcar pontos contra uma instituição perigosa que já não teria razão de ser. O biólogo Richard Dawkins escreveu que pessoas boas fazem coisas boas e pessoas más fazem coisas más, mas para levar uma pessoa boa a fazer coisas más era preciso religião. A coluna que publicou nos jornais um dia após os atentados deve ter sido das que mais agitação gerou em toda a história da imprensa. Em abono da verdade, deve dizer-se que a motivação da coluna não parece ter sido apenas, ou sobretudo, o horror causado pelos atentados. Há muito que Dawkins é conhecido como inimigo da religião. Não apenas ateu, não apenas defensor da separação entre Igreja e Estado, como mandatado pela Constituição americana e pela quase totalidade das leis nos países ocidentais. Inimigo, mesmo; alguém para quem a religião não devia existir, pois os danos que provoca são infinitamente superiores a quaisquer benefícios que possa ter.

Dawkins adora polémica. Ao longo da sua carreira pública - iniciada em 1976 com a publicação da obra seminal O Gene Egoísta - teve inúmeras discussões com colegas e com responsáveis públicos. Em relação à religião, a característica que habitualmente o distingue é o radicalismo. Dawkins não vê espaço para compromisso, nem com os crentes nem com os não-crentes que os toleram. Parafraseando um famoso senador americano, ele diria que a moderação na defesa da razão não constitui virtude.

Dawkins acha que a tolerância em relação ao sentimento religioso concede à religião um espaço que ela não usa para dialogar. Sendo por natureza intolerante, a única forma razoável de lidar com ela é atacando. Uma demonstração dessa atitude teve lugar no mês passado numa conferência promovida pelo Salk Institute for Biological Studies, uma respeitável academia californiana que procura criar pontes entre ciência e religião. Embora a maioria dos participantes fossem anti-religiosos, nenhum senão Dawkins terá ido ao ponto de se indignar com o facto de haver crianças que recebem uma educação religiosa - a quem se ensinam «mentiras sobre assuntos importantes», o que devia ser proibido por lei, segundo ele. Mesmo Steven Weinberg, o físico vencedor do Nobel que fala na necessidade de a Humanidade «acordar do longo pesadelo da fé religiosa» - enfraquecer o poder da religião, diz, é o maior de todos os serviços que a ciência pode prestar -, já admitia no fim da conferência que vai ter saudades da religião quando ela desaparecer. Hoje em dia, pode ser velha e inútil, mas foi bela em tempos. Ao ouvir essas palavras, Dawkins respondeu imediatamente que, pela sua parte, não vai ter saudades nenhumas.

É pouco provável que a questão se lhe venha a pôr. Dawkins está com 64 anos, e a religião continua a prosperar ao fim de vários milénios. Só em alguns países da Europa uma parte substancial da população se declara não-religiosa. No resto do mundo, o que se vê cada vez mais desde o fim da Guerra Fria é o reacender de conflitos com base étnico-religiosa. Justamente, esse é um dos argumentos que ele usa contra a religião no seu livro recentemente publicado, The God Delusion (A Ilusão de Deus), que se tornou num «best-seller» quase instantaneamente nos Estados Unidos. A religião é fonte de violência e, na presente circunstância histórica, ninguém se pode dar ao luxo de ignorar o facto.

Quanto ao resto, o livro não se caracteriza exactamente pela originalidade. Sendo já longa a história do ateísmo ocidental e constando dela nomes como Bertrand Russell ou, muito antes, o barão de Holbach, mais ou menos tudo o que Dawkins afirma já foi dito, sob uma forma ou outra, por gente mais e menos ilustre do que ele. As suas respostas aos argumentos clássicos a favor de Deus - incluindo as cinco provas de São Tomás de Aquino - nada têm de novo. O mesmo sucede com a afirmação de que a moral pode ter uma base natural, não divina, e com as suas propostas de mandamentos alternativos. A única relativa novidade do livro é o facto de Dawkins sintetizar todos os argumentos em boa prosa e os apresentar num tom ao mesmo tempo elegante, académico e de clara e assumida falta de respeito. Ele acha que, em relação à religião, o respeito é mal empregue, por não ser recíproco; a religião não respeita os outros, tendo ao longo da História lançado anátemas sobre muitas categorias de pessoas e actos. Ainda hoje estigmatiza os adúlteros, os homossexuais, as mães solteiras e os membros de outras fés (pelo menos em países como a Arábia Saudita). Ao pretender comandar a vida pessoal e política, a religião torna-se um assunto público, o que forçosamente a sujeita à crítica.

Em teoria, a religião devia poder ser debatida como qualquer outro assunto. Na prática, é difícil discuti-la publicamente, por exemplo, nos Estados Unidos. Dawkins lembra que ninguém com a mais pequena aspiração a fazer carreira política nesse país se reconhece como ateu. Isto é assim há muito tempo e não parecia especialmente preocupante até ao momento em que a direita religiosa se apoderou de todas as instituições de poder. Quando se viu que, de repente, não só o Presidente e o Congresso como o Supremo Tribunal, os governadores da maioria dos Estados e uma variedade de cargos importantes escolhidos por eleição (por exemplo, os procuradores-gerais de diversos Estados) se encontravam nas mãos de conservadores com uma agenda ideológica de fundo religioso, era natural que os liberais começassem a ficar inquietos. Sobretudo quando assistiam a iniciativas contra a ciência propriamente dita.

A maioria dessas iniciativas visa a teoria da evolução, como aliás acontece desde há muito. Nos anos 20, um célebre julgamento opôs os criacionistas - os crentes que interpretam literalmente a Bíblia, defendendo a criação do mundo tal como descrita no Génesis - aos partidários da teoria de Darwin, que nessa altura já tinha um estatuto mais ou menos consensual entre a comunidade científica. Apesar disso, vários Estados tinham leis que proibiam ensiná-la. Embora o resultado final do julgamento tenha sido a condenação do professor que infringira semelhante lei no Tennessee, pode considerar-se que o debate público no país teve um saldo oposto. Com o tempo, os Estados Unidos foram acompanhando o resto do mundo. Leis como aquela foram desaparecendo, o darwinismo sofreu muitas revisões, mantendo-se vigente, e em 1987 o Supremo Tribunal proibiu definitivamente o ensino do criacionismo como ciência.

Foi então que a direita religiosa concebeu outra abordagem. Já que não podia proibir o darwinismo, ao menos podia tentar que ele fosse considerado uma mera teoria não provada. Ao mesmo tempo, sugeriu uma alternativa. O chamado «intelligent design», ou desenho inteligente, é uma forma de tornear a proibição de ensinar o criacionismo nas aulas de ciência. Em síntese, afirma que a natureza abunda em entidades demasiado complexas para serem produtos do acaso. Não apenas organismos vivos ou formas de matéria, mas as próprias estruturas matemáticas que se encontram na base de tudo o que existe. Quanto mais se descobre sobre elas, mais se sente a maravilha da complexidade e melhor se compreende que apenas um ser superior as podia ter criado ou desenhado.

Como tudo o resto, o ensino e as teorias oficiais são uma questão de poder. Assim que George W. Bush assumiu a Presidência dos Estados Unidos, «boards of education» pelo país fora começaram a ordenar que o «intelligent design» fosse ensinado a par com a teoria da evolução. Foi-se ao ponto de determinar que nos manuais de biologia fossem apostos autocolantes a declarar que o darwinismo era uma mera teoria. Escusado será dizer que o Presidente, com a clarividência que o distingue, também apareceu em público a defender que criacionismo e darwinismo deviam ser ensinados a par, como duas alternativas igualmente válidas.

É esse contexto de confronto entre ciência e pseudociência - ou, mais precisamente, entre a ciência propriamente dita e uma tendência política de inspiração religiosa actualmente no poder - que alimenta a indignação de cientistas como Dawkins. Outras versões da mesma atitude surgiram de pessoas com «background» semelhante ou afim - não necessariamente biólogos de profissão, embora de modo geral sejam defensores de Darwin. Há meses, o filósofo americano Daniell C. Dennett publicou um livro intitulado Breaking the Spell - Religion as a Natural Phenomenon, que, não repetindo exactamente a mesma ideia (ele tem uma visão mais equilibrada que Dawkins), também de modo algum a desmente.

Trata-se de uma obra um pouco estranha, feita ao mesmo tempo de especulação científica e polémica moral. Dennett questiona, por exemplo, se as pessoas religiosas são mais felizes, se a religião é boa, em que estado se encontra na América, etc. Essas partes são as menos interessantes do livro. Ele torna-se relevante quando começa de facto a encarar a religião como fenómeno natural - natural porque humano, social, ou seja, distinto de sobrenatural -, tentando perceber como apareceu e evoluiu. Para esse fim, recorre a conhecimentos de variada origem científica: psicologia, neurociência, genética, história social e cultural.

Após uma introdução em que reconhece o apelo da fé numa época de confusão moral, Dennett inicia o seu argumento. O primeiro de vários conceitos curiosos que irá introduzir é o do Bom Truque: «Um movimento no espaço do design (‘design space’) que será ‘descoberto’ outra e outra vez mediante processos evolucionários cegos apenas porque tantos caminhos adaptativos levam a ele e portanto o apoiam.» A religião seria um Bom Truque, tal como a visão, o voo ou o dinheiro; tal como eles, evoluiu várias vezes ao longo da História.

Dennett afirma que ao princípio não havia religião. Esta surgiu como manifestação de uma necessidade de criar sentido. Dennett refere especificamente uma característica humana chamada «agência» - atribuição de crenças e intenções a outros seres. Essa característica é uma ferramenta essencial de sobrevivência e, como todas as ferramentas, pode ser bem ou mal usada. Não existe «agência» apenas em relação a outros seres humanos (ou animais), mas igualmente em relação a todas as forças que não podemos entender. Dennett fala em certos mecanismos mentais, os «Hyperactive Agent Detection Devices» (HADD); hiperactivos no sentido em que estão sempre a funcionar, mesmo quando o objecto a que se aplicam não tem uma intencionalidade visível.

Citando Pascal Boyer e Scott Atran (dois antropólogos que também têm conhecimentos de biologia da evolução e psicologia cognitiva), ele menciona capacidades de memória, detecção de mentiras, intuição moral, vários sistemas de alarme e apetite por histórias. Quanto ao instinto (talvez genético) de perceber intencionalidades, tende a produzir certos tipos de ideias que se repetem ao longo da História humana e que, a um nível básico, podem corresponder todos àquilo que se designa por superstição. Se troveja é porque algo ou alguém quis que trovejasse.

Isso não chega para explicar a religião - e muito menos a religião organizada. Dennett menciona o conceito de «group selection», adoptado pelo biólogo David Sloan Wilson - a religião apareceu porque beneficia a sociedade como um todo -, mas prefere-lhe um outro, inventado por Dawkins: o «meme». «Memes» são replicantes culturais: ideias, hábitos, que se vão repetindo e adaptando. Dennett especifica que «a transmissão cultural pode às vezes imitar a transmissão genética, permitindo que variantes concorrentes sejam copiadas a diferentes ritmos, resultando em revisões graduais de características desses itens culturais; e essas revisões não têm um autor deliberado». Dá como exemplo o latim e as línguas dele oriundas. Assim como essas línguas surgiram espontaneamente, a religião foi sendo criada e evoluindo.

A passagem da religião popular à organizada, ou estruturada, teria a ver com razões práticas. Se existe de facto um ser superior e a nossa vida depende dele, faz sentido arranjar uma forma eficaz de comunicar - uma espécie de ajuda profissional. Dennett vale-se aqui do trabalho de dois teóricos da «escolha racional», Rodney Stark e Roger Finke: em determinada fase da História humana, a religião foi o instrumento adequado para atingir um conjunto de fins sociais e pessoais.

Dennett fala a seguir dos mecanismos de autoprotecção que a religião desenvolveu: dos tradicionais hábitos de segredo às afirmações rituais sobre a incompreensibilidade de Deus («a sistemática invulnerabilidade à desconfirmação»), passando pelas «cortinas de fumo académicas» e afins. O tom do autor nessas passagens sugere desilusões pessoais de natureza pouco espiritual.

Na terceira e última parte do livro, Dennett questiona a religião tal como existe hoje em dia, fazendo algumas observações curiosas - por exemplo, sobre como a própria diversidade de oferta é um factor na popularidade da religião entre os americanos. Em nenhum outro país do mundo há tantas versões da mesma religião ou existe aquele tipo de «mega-igrejas» de subúrbio, verdadeiros centros comerciais, com «playcenters» e tudo, que se tornam lugares perfeitos para levar a família a passear.

Folclore à parte, a perspectiva de Dennett pode ser resumida na seguinte citação: «A ideia de que a recompensa no céu é o que motiva as boas pessoas é rebaixante e desnecessária; a ideia de que a religião no seu melhor dá sentido à vida é prejudicada pela armadilha de hipocrisia em que caímos; a ideia de que a autoridade religiosa fundamenta os nossos juízos morais é inútil em genuína exploração ecuménica; e a presumível relação entre espiritualidade e bondade moral é uma ilusão.»

Dennett não acha que a religião deva determinar a conduta humana, nem ao nível pessoal nem ao nível político. No livro, transparece indignação, por exemplo, em relação à ideia de que um antigo contrato com Deus permite expulsar um povo das suas terras para lá instalar outro. A referência é óbvia, mas também é quase a única que o livro faz a uma situação política concreta. Muito mais notória e discutível é a confiança quase absoluta que Dennett parece ter na evolução como chave para entender tudo, incluindo a cultura.

Reconhecendo o carácter especulativo das suas teorias, ele acha que têm um estatuto superior ao das fantasias metafísicas que pretendem substituir. Mas essas alegadas fantasias têm a seu favor o peso de milénios de História, e não é provável que livros como os de Dennett e Dawkins (ou mesmo textos apocalípticos como os do jovem filósofo Sam Harris, sobre a religião como fonte de violência) produzam qualquer efeito imediato sobre os crentes. As pessoas de fé sabem que a religião tem uma infinidade de respostas para a complexidade da vida. A decisão pessoal de fazer parte de uma Igreja pode ser perfeitamente racional, independentemente do que digam os raciocínios da ciência.

No fundo, pesem as aspirações declaradas de Dennett e Dawkins - este último chega a dizer que espera que o seu livro tire a fé aos crentes -, a audiência a que se dirigem é bastante mais próxima e o efeito a que aspiram bastante mais imediato. O que está em causa, no fundo, são guerras académicas e políticas. Isso não significa que os argumentos apresentados não mereçam consideração. Mas a verdade é que nenhum desses autores ou outros que têm publicado obras no mesmo sentido fizeram sobre a religião uma investigação minimamente comparável à que Darwin fez sobre a natureza.

O crítico Terry Eagleton, por exemplo, pergunta retoricamente a Dawkins: «Quais são os seus pontos de vista sobre as diferenças epistemológicas entre Aquino e Duns Scoto? Leu Erigena sobre a subjectividade, Rahner sobre a graça ou Moltman sobre a esperança? Alguma vez ouviu falar deles?» É bastante provável que Dawkins ignore tudo ou quase tudo sobre esses teólogos - e o mesmo se poderá dizer de praticamente todas as pessoas que vão à Igreja. Em matéria de ignorância teológica, haverá pouca ou nenhuma diferença entre um crente e um não-crente. Dir-se-á que, nestes assuntos, a teoria não é o mais importante. Mas a quem escreve tratados, ou panfletos disfarçados de tratados, exige-se mais do que fé, seja em Deus ou na Sua ausência. Há que investigar.

O problema é saber onde. Se não na alma, em que lugar?