A alma da mercadoria

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António Guerreiro (Expresso, 22/07/2006)

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A mercadoria, com todas as suas subtilezas metafísicas, é a forma que domina hoje toda a vida social, cultural e política. A sua lógica de crescimento sem fim é autodestrutiva.

O completo domínio da mercadoria - da forma mercadoria - sobre todos os aspectos da vida social estendeu-se ao mundo inteiro. No processo imparável de mercadorização, responsável por um estado de guerra permanente, não há interrupções nem zonas protegidas. O director de um canal de televisão francês mostrou bem que qualquer recanto, material ou imaterial, íntimo ou exterior, sagrado ou profano, pode ser transformado numa fantasmagoria pelo processo de produção capitalista: o negócio da televisão, disse ele, consiste em explorar «tempos de cérebro disponíveis» para a penetração da publicidade. Nada que não soubéssemos já, mas as doses de verdade de que necessitam os consumidores de desejos, sonhos e modos de vida prometidos pela televisão dispensam um tal teor de crueza e cinismo, e costumam ser administradas de modo a tudo manter no plano do encantamento e da sublimidade. Por isso, essas palavras causaram escândalo.

Nada ilustra melhor a dominação da mercadoria do que a regra elementar do consumo: o acto mais comum, nos nossos dias, é comprar coisas de que não temos necessidade. Guy Debord propôs, em 1967, uma definição do capitalismo na sua fase extrema, a da mercadoria como espectáculo: «O espectáculo é o capital num tal grau de acumulação que se torna imagem». A fase actual é a de uma mercadorização da experiência de que fala o filósofo esloveno Slavoj Ž ižek, quando mostra que o consumo é, também ele, uma mercadoria, pelo que esta tem cada vez menos a ver com um objecto sólido e com uma presença estável (convidando assim a reformular o tema marxista da «reificação»). Ž ižek serve-se de um exemplo óbvio: «Compro a minha imagem pública indo a restaurantes frequentados por pessoas a quem quero ser associado».

Na sua Obra das Passagens, Walter Benjamin mostrou que o destino da cultura no século XIX residia precisamente no carácter de mercadoria que, segundo ele, adquiriam todos os produtos, incluindo os «bens culturais», uma vez transformados em fantasmagorias. O lugar por excelência dessa transfiguração eram esses novos espaços feéricos concebidos para a exposição dos produtos e para a sua contemplação: as chamadas passagens, antepassados dos centros comerciais, de que a grande metrópole - a nova Paris de Haussmann - tinha sido dotada. Estes novos templos do consumo - onde se prefigura, em imagens de sonho, o que será o século XX -, para Benjamin, são os hieróglifos materiais onde a história pode ser decifrada


Ao chamar-lhe «templos», Benjamin utilizava uma analogia religiosa que tinha ido buscar a Marx, à quarta parte do 1.º capítulo de O Capital, aquela que tem como título «O Carácter de Fetiche da Mercadoria e o Seu Segredo». Em análise, nesse capítulo, está a forma mercadoria, que Marx diz ser a «célula germinal» do capitalismo. Recordemos a primeira frase de O Capital: «A riqueza das sociedades nas quais reina o modo de produção capitalista anuncia-se como uma imensa acumulação de mercadorias». E quando, nessa análise, Marx mostra que um objecto do trabalho humano, para se tornar uma mercadoria, tem de sofrer uma transfiguração que lhe dá um carácter de fetiche (com a sua dimensão enigmática e fantasmagórica) e um valor abstracto (porque mensurável apenas a partir de outras mercadorias), percebemos que aquilo que julgávamos que era a coisa mais simples do mundo é afinal muito complexa. Vale a pena citar o primeiro parágrafo dessa parte do primeiro capítulo sobre o fetichismo da mercadoria: «Uma mercadoria parece, ao primeiro olhar, algo de trivial e evidente. A nossa análise mostrou, pelo contrario, que é uma coisa muito complexa, cheia de subtilezas metafísicas e argúcias teológicas». Que subtilezas e argúcias são essas? Aquelas que fazem com que, por exemplo, uma mesa de madeira, a partir do momento em que se apresenta como mercadoria, deixe de ser um objecto, tal como os nossos sentidos o apreendem. Simultaneamente «sensível e supra-sensível», diz Marx, «não lhe basta pousar os pés no chão; ela ergue-se, digamos assim, levantando a sua cabeça de madeira diante das outras mercadorias e entrega-se a caprichos mais bizarros do que se se pusesse a dançar». O seu segredo, no essencial, é este: ela desdobra-se num valor de uso (aquilo que nela visa a satisfação de uma determinada necessidade humana) e num valor de troca (do qual o valor de uso é o suporte material, mas que a torna uma «aparência de coisa», um fetiche que escapa ao controle). E Marx mostra como a mercadoria volta para nós as duas faces, mas sem que possamos apreendê-las simultaneamente. E quanto mais o valor de troca eclipsa o valor de uso mais a mercadoria se torna um objecto feérico.

O paradigma religioso a que Marx recorre, na sua análise, está bem indiciado em palavras e expressões que utiliza para se referir à mercadoria: «Subtilezas metafísicas», «argúcias teológicas», «carácter místico», «carácter enigmático», «segredo», «misticismo». Na verdade, só a «região nebulosa do mundo religioso» (são também de Marx, estas palavras) permite compreender o processo de fetichização da mercadoria, pelo qual esta atinge uma esfera completamente separada do seu uso. Nas exposições universais (que Benjamin definiu como «centros de peregrinação da mercadoria-fetiche»), uma indicação escrita por todo o lado tornou-se familiar aos visitantes: «É proibido tocar nos objectos expostos». Era um sinal de que tudo começava a ser subtraído ao uso e entrava no cânone teológico do consumo, de que fala Giorgio Agamben, no seu último livro (Profanazioni, Nottetempo, 2005): «Na sua forma extrema, a religião capitalista realiza a pura forma da separação, sem que haja mais nada para separar. Uma profanação absoluta e sem resíduos coincide agora com uma consagração igualmente vazia e integral. E como na mercadoria a separação é inerente à própria forma do objecto, que se divide em valor de uso e valor de troca e se transforma num fetiche inapreensível, agora tudo aquilo que é submetido à acção, produzido e vivido - também o corpo humano, também a sexualidade, também a linguagem - sofre uma divisão e é deslocado para uma esfera separada (…) em que todo o uso se torna para sempre impossível. Esta esfera é o consumo» (pág. 93).

Agamben segue aqui um fragmento de Walter Benjamin, escrito em 1921, intitulado «O Capitalismo como Religião». Não se trata, para Benjamin, de ver as condicionantes religiosas do capitalismo (como fez Max Weber), mas de vê-lo como um fenómeno cuja estrutura é «essencialmente religiosa», como «uma pura religião cultual, talvez a mais extrema que houve até agora», uma religião onde o culto é permanente, deixando de haver distinção entre os dias de festa e os dias de trabalho, já que o trabalho coincide com a celebração do culto. O culto da religião capitalista é naturalmente o culto da mercadoria. Fácil é perceber que Benjamin prolonga a lógica da análise de Marx, tal como Agamben radicaliza algumas categorias benjaminianas para definir a missão política com que estamos confrontados: a profanação do que, separado do uso, entrou na esfera do improfanável.

Dois livros traduzidos para português e editados recentemente levam bastante longe quer a análise dos fundamentos do capitalismo e do seu desenvolvimento segundo uma lógica interna que chegou a um ponto de paroxismo, quer a reflexão sobre o estado do «espírito do capitalismo» e das democracias ocidentais. São eles As Aventuras da Democracia, de Anselm Jappe, um filósofo alemão ligado à revista «Krisis» e autor de um livro sobre Guy Debord, e Descrença e Descrédito, do filósofo francês Bernard Stiegler, que, para além de uma importante obra (em três volumes) sobre a questão da técnica, na sua relação com o tempo e com o pensamento filosófico, se tem dedicado nos seus últimos livros a uma reflexão sobre aquilo que diz ser a decadência do espírito do capitalismo, tal como ela se verifica não apenas na realidade política e social, mas também no plano das produções simbólicas.

Anselm Jappe começa pela verificação básica de que toda a sociedade, todo o modo de viver e produzir, se baseia na mercadoria. E a lógica da mercadoria, como percebeu Marx, é a da produção tautológica de bens, sem medida nem limite. Um sistema que tem por única finalidade o seu próprio crescimento é necessariamente autodestrutivo. Durante muito tempo, o capitalismo conseguiu mesmo reconverter em seu proveito as suas crises estruturais. Mas não é o que se passa hoje, quando a crise do ambiente e o crescimento do desemprego (formando verdadeiros exércitos de expulsos do sistema) se tornaram «uma espada de Dâmocles suspensa sobre a cabeça de todos», diz Jappe. Os «marxistas tradicionais» concederam um lugar central, tanto no trabalho teórico como na prática, à luta de classes. Anselm Jappe, pelo contrário, quer deduzir todo o capitalismo (e a ameaça de derrocada que sobre ele impende) da estrutura da mercadoria. Por isso, entende que a teoria do fetichismo tem um lugar central na crítica que Marx faz do capitalismo. Este Marx da crítica da mercadoria é, do ponto de vista de Anselm Jappe, o «Marx esotérico», por oposição ao «Marx exotérico» da vulgata marxista. E, no seu raciocínio, é ao primeiro - o esotérico - que é inevitável regressar no momento em que se tornou necessária a crítica das categorias que estão na base da modernização capitalista, já que o pensamento do segundo, para além de ultrapassado, acabou por servir como teoria da modernização. Na verdade, argumenta Jappe, «o marxismo tradicional e as suas aplicações práticas mais não foram do que um factor de desenvolvimento da sociedade mercantil» (pág. 10). Em suma, o marxismo tradicional, em vez de uma crítica das categorias básicas do capitalismo (a crítica da mercadoria, do valor, do trabalho abstracto, etc.) centrou-se nos modos de distribuição e aplicação da riqueza. As projecções do fim do capitalismo por via de um novo sujeito da história - um proletariado cada vez mais numeroso, mais organizado e consciente - foram encerradas no baú das velharias do «Marx exotérico». Na leitura que Jappe faz de Marx, a mercadoria é o verdadeiro sujeito e o homem é o executor da sua lógica. «Por conseguinte, o capitalista não age como age por ser ‘mau’: é muito notório nas análises de Marx, como em Hegel, que não há qualquer tipo de recurso à psicologia, e consequentemente também não ao moralismo» (pág. 91). O sistema é autodestrutivo exactamente porque entra num processo «louco», irracional, que é o da lógica da mercadoria. Buscando então os sinais mais evidentes da crise da sociedade mercantil, Anselm Jappe mostra como em todos os domínios o sistema tende para a tautologia, para a circularidade e o fim em si mesmo. O dinheiro - a principal categoria da sociedade capitalista - tem por finalidade o seu próprio crescimento, num processo que não pode ser interrompido e se estendeu às regiões infinitas da especulação que cria capital fictício, baseado na expectativa de mais lucros. Tautológico é o sistema da mercadoria, em que é necessário produzir sempre mais. O que não significa que a criação de mais-valia se torne mais fácil, pelo contrário: «Para produzir a mesma quantidade de valor torna-se necessária uma produção sempre mais ampliada de valores e consequentemente um consumo acrescido dos recursos naturais» (pág. 138). Por outro lado, a produtividade acrescida do trabalho, graças às tecnologias, não significou nunca uma diminuição do tempo de trabalho. Segundo Jappe, a evolução foi sempre no sentido de se trabalhar cada vez mais. Até «um verdadeiro pequeno empresário dos nossos dias se orgulha de trabalhar mais do que um proletário inglês do tempo de Charles Dickens» (pág. 105). Mas o pior mal que o capitalismo faz aos homens já não é a exploração, é a expulsão: «O estádio final do capitalismo caracteriza-se (…) pela ausência de pessoas que valha a pena explorar» (pág. 155).

Uma sociedade baseada na mercadoria deixa de ser formada por cidadãos e acaba por se transformar numa sociedade de consumidores. O consumo nas sociedades industriais constitui uma ruptura em relação à cidadania. É neste devir-consumista que Bernard Stiegler identifica a «decadência da democracia» e a liquidação do político propriamente dito. A aporia do capitalismo, diz Stiegler, consiste na proletarização do consumo. À baixa tendencial de percentagem de lucro , o capital responde alargando a extensão dos seus mercados. Assim se vai criando «um proletariado total», um proletariado sem qualidades, onde se projecta toda a «miséria simbólica» do mundo em que vive. Stiegler identifica aqui a aporia do capitalismo hiperindustrial: o espírito do capitalismo e a sua racionalidade tornam-se autodestruidores. Liquidando a líbido que é a sua energia, dessublimando-se pelo esgotamento de toda a sublimidade, o capitalismo autodestrói-se. Chegámos assim, defende Stiegler, a uma «miséria espiritual» que pode ser analisada como consequência extrema da «miséria simbólica». O «desencantamento» de que falou Max Weber chegou ao momento de legibilidade e visibilidade totais. Este processo leva Stiegler a concluir que o actual modelo sócio-económico de produção industrial é caduco e parece conduzir à destruição do capitalismo.

Se não é possível prever a dimensão da catástrofe, ela não será, em todo o caso, serena. É o que pensa Stiegler. Daí que, ao contrário de Jappe (que acentua o carácter de fase histórica do capitalismo, apontando simplesmente para o fim daquilo que também teve um início), argumente que o capitalismo deve ser defendido (contra os seus radicais opositores e contra si próprio) e não pura e simplesmente combatido: «Em suma, não se trata de se opor ao processo capitalista mas, muito pelo contrário, de levá-lo ao seu termo, ou seja, de evitar a sua autodestruição e permitir a sua transformação» (pág. 62). Proteger o capitalismo contra si próprio e insuflar-lhe espírito, eis o que nos remete para um diálogo, na primeira parte de O Capital, em que Marx se põe a imaginar o que diria um economista que falasse com a «alma da mercadoria». Mais uma vez atento à analogia religiosa, Walter Benjamin não resistiu a comentar: «Se a mercadoria tivesse alma, esta seria a mais delicada do reino das almas».

Anselm Jappe, «As Aventuras da Mercadoria. Para uma Nova Crítica do Valor»,

Antígona, 2006, trad. de José Miranda Justo, 288 págs., 18€

Bernard Stiegler, «Descrença e Descrédito. A Decadência das Democracias Industriais», Vendaval, 2006, trad. de Carlos Correia Monteiro de Oliveira, 240 págs., 23€