Capítulo do livro "Marxismo e Globalização", Ronaldo Fonseca, Campo das Letras 2002


Manipulação do pensamento marxista

Os ideólogos da social-democracia/neoliberalismo, os ex-marxistas a ela convertidos e os «pós-modemos», tentam apresentar a globalização e as novas tecnologías da «revolução informacional» como superadoras do próprio sistema capitalista. Mesmo os que criticam as visões apologéticas do sistema, postulam que os referidos factores deram nascimento a um novo sistema global e qualitativamente diferente, já não mais baseado na produção da mais-valia, na exploração do trabalho humano. O que agora seria negativo é a «exclusão» do circuito económico sem compensação justa, num cenário tendencial para o «fim do trabalho» (ver nota no fim deste texto).

Alguns, curiosamente, vão buscar apoio para suas teses num texto de Marx nos Grundrisse que diz: «Mas na medida em que a grande indústria se desenvolve, a criação da riqueza real toma-se menos dependente do tempo de trabalho e do quantum de trabalho útil/ como do poder dos agentes que são colocados em movimento durante o tempo de trabalho, e, mais uma vez, ela mesma - cuja eficácia é gigantesca -, não está em proporção ao tempo de trabalho imediato que a sua produção custa, mas depende principalmente do estado geral da ciência e do progresso da tecnologia ou da aplicação desta ciência à produção». E mais à frente, Marx completa o seu raciocínio: «A partir do momento em que o trabalho sob a sua forma imediata cessa de ser a grande fonte de riqueza, o tempo de trabalho cessa e deve cessar de ser a sua medida e portanto o valor de troca do valor de uso. O sobretrabalho da massa cessa de ser a condição para o desenvolvimento da riqueza geral, da mesma forma que o não-trabalho de alguns cessa de ser a condição para o desenvolvimento dos poderes gerais da inteligência humana. É por tudo isto que a produção que repousa sobre o valor de troca se desagrega e o processo da produção material imediato fica depurado da forma da penúria e da contradição». (Grundrisse, pp. 592-593).

Só por uma manifesta falta de familiaridade com os textos de Marx é que se poderia daqui extrair conclusões no sentido de automatismos ou determinismos tecnológicos como factores unilaterais conduzindo por si só a um modo de produção e a uma formação social diferentes. Na realidade, Marx de maneira alguma afirma que chegaríamos a uma etapa de desenvolvimento do capitalismo na qual a mais-valia (e o lucro) já não seriam produzidos pela exploração do trabalho humano. O que ele admite é que a riqueza geral (o que é completamente diferente) cessaria de depender principalmente do tempo de trabalho humano, passando a depender do estado geral da ciência e do progresso da tecnologia. Isto significa que para Marx esta etapa histórica só poderia dar-se numa sociedade que já não mais seria a capitalista, (a qual, segundo ele, é baseada na produção mercantil, isto é, implicando a mais-valia, a exploração do trabalho humano, a produção de valores de troca para o mercado). E esta interpretação é de tal maneira evidente, que o próprio Marx se encarrega de confirmá-la mais abaixo, no mesmo texto, ao escrever que «é por tudo isto que a produção que repousa sobre o valor de troca (o capitalismo, R.F.) se desagrega», e com ela terminam as contradições e a penúria. Nada poderia ser mais óbvio nem mais coerente com a obra de Marx. Para ele, uma tal etapa do desenvolvimento da humanidade (com a ciência e a tecnologia ao serviço da produção da riqueza geral e não do lucro) só seria possível numa sociedade não-capítalista, isto é, no socialismo. A menos que os nossos teóricos considerem que na seriedade da globalização já não há mais produção de lucro, mas de riqueza geral e que nela terminaram as contradições e a penúria...

(nota de pé de página)

"Segundo tal leitura, sendo a globalização um processo "natural e inevitável", tratar-se-ia agora de "reorientá-la", no sentido de corrigir ou eliminar os seus aspectos negativos, etc.. dando lugar a uma "globalização progressista", A nosso ver esta visão está duplamente equivocada. Em primeiro lugar porque “naturaliza” e considera “inevitável” aquilo que é de facto uma estratégia “voluntária” e "deliberada", conduzida pêlos grandes grupos privados transnacionais apoiados no imperialismo americano, no sentido de adiar os efeitos da crise do capitalismo, através da imposição de mecanismos mais globalizados de exploração, financiamento e regressão social. É esta a única "globalização" real. Em segundo lugar, porque escamoteia o facto óbvio de que tal processo só é possível graças à propriedade privada aos grandes meios de produção e da alta finança, aliados à força do imperialismo americano. Assim sendo, é enganoso sugerir que seria possível uma “reorientação” deste processo sem se colocar em causa a referida grande propriedade privada. O que obviamente só será atingido pela luta de classes multifacetada à escala nacional-mundial, conjugada com as contradições do próprio sistema. Não haverá "reorientaçao progressista" do sistema através de esquemas de negociação com os seus organismos supra nacionais. Isto seria negar que o capitalismo tem os seus mecanismos e contradições próprias e irredutíveis. Quanto à questão de um entrelaçamento continental (europeu) das economias num sentido progressista, tal ideia (e sua dinâmica) não é nova, já foi referida desde o início do século por dirigentes revolucionários, mas, na perspectiva óbvia de uma Europa socialista, constituída na base da propriedade pública do essencial das suas economias.