Karl Marx - Tão longe e tão perto

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António Guerreiro, Expresso 13 de Setembro 2008

 

Talvez seja uma daquelas palavras que não são verdadeiras nem falsas porque criam o efeito que pretendem designar. Mas surgindo em regime de repetição e como formação de sentido (teórico), tem pelo menos a verdade do sintoma. Nos meios profanos, o sintoma teve manifestações mais seguras: o Manifesto do Partido Comunista (de que Engels é co-autor) tem sido nos últimos anos um «best-seller» na Alemanha. Corre mesmo a anedota de que vende mais do que a Bíblia.

Qualquer que seja o alcance e o teor do fenómeno, trata-se sempre de uma reincidência: a primeira «Marx-renaissance» deu-se nos anos 20 do século passado, por via de Lukács e Karl Korsch. Mas agora a «conjuntura» (como se diz em linguagem cripto-marxista que se tornou comum) não parecia nada favorável ao sobressalto de um tal renascimento: ao longo de mais de uma década (desde o final dos anos 80 até ao início do século XXI), tinham soado as vozes cantando o «fim da história», anunciando o movimento imparável das democracias liberais - o consenso universal do capitalismo - que nos faria entrar numa época pós-ideológica e pós-política. Um acontecimento histórico dava firme caução a estas ideias: o fim dos regimes comunistas nos países do Leste europeu e a consequente queda do Muro de Berlim. A «Zusamennbruch» marxiana, a teoria do colapso do capitalismo por força de uma lógica interna, tinha afinal vitimado o «socialismo real». E, com ele, Marx, que já não se encontrava muito bem desde o Maio de 68, teria também morrido, irreparavelmente.

A «Marx-renaissance» é um fenómeno culto, com sede nas universidades (talvez em primeiro lugar, as americanas) e manifesta-se num debate que alimenta uma abundante bibliografia. No plano da praxis política, Marx não se tornou num momento figura obrigatória de invocação. O Real (com maiúsculas ou sem elas) é muito mais permeável à interpretação do que à acção que o transforma: mais ou menos isto, disse-o Marx numa das suas teses sobre Feuerbach.

Na origem desta «renaissance» está um «deficit» que se tinha tornado insuportável, mesmo mortal: o «deficit» crítico, de pensamento crítico para analisar o mundo actual e orientar-se nos fenómenos singulares das novas configurações sociais. Ninguém já ousa repetir, com Sartre, que o marxismo é o horizonte inultrapassável do nosso tempo, mas a matéria política com que estamos confrontados requer instrumentos críticos - e um «espírito - que Marx, sob certas condições, ainda fornece.

Este é o argumento desenvolvido por Jacques Derrida em Spectres de Marx, um livro que, em 1993, quando foi publicado, surgiu como um objecto intempestivo, tanto mais que vinha de um filósofo que não tinha sido marxista e que se poderia considerar impoluto em matéria de compromissos teóricos ou práticos nessa área. Na origem desse livro está uma conferência que o filósofo francês tinha feito nesse ano na California University, a abrir um convénio internacional com o título «Whither marxism?», para onde vai o marxismo? Derrida, cuja obra teve (e continua a ter) uma influência enorme em sectores importantes da universidade americana, está certamente na origem de um efeito que, com o nome de «Marx-renaissance», jamais ele reivindicaria como seu. Porque a questão de um regresso a Marx ou de um regresso de Marx não é o modo pelo qual ele defende que «é necessário assumir a herança do marxismo». E assumir a herança do marxismo é assumir uma responsabilidade teórica, filosófica e política dos vários «espíritos» do marxismo. E um desses espíritos é a «ideia crítica». Derrida designava assim uma actualidade de Marx, para além dos apelos ideológicos ao marxismo e ao «retorno de Marx»: invocando a «revolta», mas sem necessidade de uma organização do proletariado, ou de uma classe, nem muito menos de um partido; apelando à força crítica e analítica de Marx tanto no plano da acção política como na interrogação dos fantasmas, das mercadorias, da tecnologia, do trabalho imaterial, da globalização em curso e do aparelho mediático. E nomeava «dez pragas» da nova ordem mundial» para propor uma «nova internacional» capaz de renovar e radicalizar a crítica ao estado do direito internacional. Uma aliança sem instituição, proposta por alguém que nunca acreditou no papel messiânico da união dos proletários de todos os países, nem na ditadura do proletariado - eis o que Derrida apresenta como resposta aos desafios da herança de Marx e como prova de fidelidade a um dos seus «espíritos». Ao mesmo tempo, Derrida denunciava a atitude que consiste em jogar Marx contra o marxismo e neutralizá-lo politicamente.

Os «espíritos» de Marx invocados por Derrida tiveram um efeito espantoso na dita «renaissance». A qual, obviamente, sabe muito bem que o marxismo, em muita da sua substância, foi invalidado. Foi invalidado na sua pretensão científica; foi invalidado ao atribuir um carácter revolucionário, em si, a uma classe; foi invalidado na previsão de que a relação «essencial» do modo de produção capitalista - entre o capital (propriedade dos meios de produção) e força assalariada vendida como mercadoria - se estenderia a todo o mundo, a partir do primeiro país em que tal modo de produção tinha alcançado o estatuto de «clássico» (a Inglaterra); foi invalidada até no facto de o seu conceito de «modo de produção capitalista» responder a uma forma historicamente específica das relações sociais. No entanto, parece haver mais Marx para além de tudo isso, e todos aqueles que vêm dizer que as teorias de Marx estão erradas do ponto de vista empírico não entram neste diálogo. Ou estão numa situação de «diferendo» (como acontece quando duas linguagens não comunicam uma com a outra porque não são comensuráveis), ou colocam-se na situação simétrica, especular, do marxismo vulgar. Mesmo um filósofo provocador (com o gosto por uma linguagem menos sóbria e não isenta de tentações pouco democráticas que têm sido amplamente criticadas), como Slavoj Zizek, que podemos incluir nesta «Marx-renaissance», mas muito distante de Derrida, o que é que se reactiva no marxismo? Não, seguramente, a ideia de que há um sujeito da história, mas a ideia de que é preciso politizar a economia, interromper a desmesura dos mecanismos do mercado, os quais, de acordo com uma posição pós-ideológica e pós-histórica, seriam como que uma segunda natureza, utensílios ou processos neutros que só existem para ser utilizados.

Comemora-se este ano 160 anos do Manifesto do Partido Comunista. Desse texto, os defensores de que Marx está morto e enterrado lembrarão a exortação final: «Operários de todos os países, uni-vos.» Mas há os que encontram matéria de citação muito mais estimulante e de larga fortuna. Como esta passagem: «Tudo o que era sólido evapora-se no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e os homens são enfim forçados a lançar um olhar lúcido sobre as suas condições de existência e as suas relações recíprocas.» O Manifesto entranhou-se na nossa visão da cultura modernista. Tornou-se um texto sem autoria, de uso corrente. Exactamente como quando dizemos «mais-valia».

P.S. O Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa realizará um «Congresso Internacional Karl Marx» nos dias 14 e 15 de Novembro