O Desvio Esquerdista e Sectário da Internacional Comunista (1929-1934) 

 

Por Jorge Nascimento Fernandes


 

1 – Introdução 
 

No rescaldo das comemorações populares do 25 de Abril elaborei um “post”, que intitulei “Mais uma manifestação de sectarismo do novo MRRP” e que se referia aos apupos que os rapazinhos da Juventude Comunista Portuguesa tinham feito aos representantes de alguns movimentos políticos, que não eram do seu agrado, quando estes iam sendo chamados para o palco onde iria ser pronunciado o discurso alusivo ao evento.

Naquele “post”, para além da referência aos apupos, descrevia outros factos que me permitiam “afirmar que neste momento a Direcção do PCP arrasta este para um caminho sectário e esquerdista, que a longo prazo o transformará num Partido marginal ao sistema político, com quem é impossível estabelecer qualquer compromisso político, tornando-o numa espécie de MRRP dos tempos actuais.”

E terminava com a promessa de “em artigo posterior dar conta” duma prática sectária e esquerdista que atacou o movimento comunista “no final dos anos 20 e início de 30 do século passado e que foi responsável pela derrota do Partido Comunista Alemão (PCA) e pelo desarme da esquerda na resistência à ascensão do nazismo. Foi a época em que o PCA acusava os sociais-democratas de sociais-fascistas (socialistas nas palavras e fascistas nos actos).”

Num comentário a esse meu “post” uma tal Margarida, em jeito depreciativo, afirmava que eu “aproveito para fazer a história de desentendimentos até aos anos 20 do século XX”. Considera, provavelmente, que as questões de história do movimento comunistas são para historiadores coca-bichinhos e que nada têm a ver com a realidade que hoje se vive. Pelo contrário, quando o Partido Comunista Português se reclama e mantém como sua doutrina oficial o “marxismo-leninismo” e considera como “apóstatas” todos aqueles que não a defendem na sua integralidade, com hífen e tudo, está a inscrever na actualidade propostas teóricas que só serão compreensíveis para os seus militantes se forem inseridas no seu contexto histórico. Por este motivo, a história do movimento comunista não é um tema despiciendo.

Mas, mais do que isto, para aqueles que viveram os tempos que se seguiram ao 25 de Abril, e reconheço que necessitam de ter hoje mais de 50 anos para se lembrarem politicamente dessa época, o problema do sectarismo esquerdista, das acusações de social-fascista com que o PCP era frequentemente mimoseado, principalmente pelo MRRP, não eram questões menores e provocavam um inegável esforço de luta e esclarecimento políticos. Álvaro Cunhal chegou mesmo a dedicar um livro (“Radicalismo pequeno burguês de fachada socialista”, as 1º e 2º edições são de 1971 e a 3º, já na legalidade, de 1974,) a este tema, que se referia, é certo, a situações anteriores ao 25 de Abril, mas que teve repercussões importantes nos tempos conturbados do PREC.

E como o prometido é devido, aqui vai uma pequena contribuição para história do ultra-esquerdismo que atacou o movimento comunista e a III Internacional, a sua força organizadora, no período entre 1929 e 1934.  
 

2 – O período ultra-esquerdista da Internacional Comunista (1929-1934) 
 

A Internacional Comunista (IC), III Internacional ou Comintern (da abreviatura do inglês Communist International) foi fundada a 4 de Março de 1919, em Moscovo, no decorrer do seu I Congresso, por cerca de quatro dezenas de participantes que, exceptuando os delegados do Partido Comunista Russo (Bolchevique) e do Partido Comunista Alemão (KPD - nas siglas alemãs), não representavam ainda verdadeiros Partidos Comunistas nacionais. No número um da proposta que foi apresentada para a sua constituição dizia-se: “a luta pela ditadura do proletariado requer uma organização unida, resoluta, internacional, de todos os elementos comunistas que adoptem esta plataforma”.

Ficaram célebres as 21 condições para adesão à IC, que foram aprovadas no seu II Congresso, em Julho de 1920, em que a 17º determinava que “todo e qualquer partido que queira pertencer à IC” deve mudar de nome e usar a designação de “Partido Comunista deste ou daquele país”.

Como não é a história da Internacional que motiva este artigo, mas sim o período de 1929 a 1934, vou deixar as peripécias da sua fundação e dos seus primeiros Congressos e passo a debruçar-me sobre alguns dos novos conceitos políticos que, no período referido, apareceram nos textos publicados pela IC e que resultavam quer dos discursos dos seus dirigentes, quer de resoluções aprovadas nos seus Congressos ou nos Plenário do seu Comité Executivo (CEIC). 
 

2.1 – “Social-Fascismo”

 

Um dos primeiros conceitos que vou abordar é o de “social-fascismo”.

Como se sabe, o primeiro partido fascista foi criado em Itália, em Março de 1919. Em 1922 consegue conquistar o poder neste país. A principal característica do regímen chefiado por aquele partido era ser uma ditadura terrorista dos elementos mais reaccionários da direita, com grande apoio de massas, que ilegalizou todas as outras forças políticas que se lhe opunham, principalmente o movimento operário organizado que, nos anos a seguir à I Guerra Mundial (Biennio Rosso - 1919-1920), tinha adquirido especial relevância.

É neste contexto político que alguns dos dirigentes da IC relacionaram o fascismo nascente com outro movimento político, a social-democracia, que influenciava grandemente a classe operária dos países mais desenvolvidos da Europa. A primeira referência que encontramos é numa das teses do V Congresso da IC, que decorreu entre 17 de Junho a 8 de Julho, de 1924, em que se afirma: “Quanto mais se decompõe a sociedade burguesa, tanto mais os partidos burgueses, sobretudo a social-democracia, adquirem um carácter mais ou menos fascista. (...) O fascismo e a social-democracia são apenas as duas faces de um só e mesmo instrumento da ditadura do grande capital. Por isto, a social-democracia jamais poderá ser um aliado firme do proletariado na luta contra o fascismo". Zinoviev, Presidente da IC (1919-26), nesse mesmo Congresso afirmou: "Os fascistas são a mão direita da burguesia; e os sociais-democratas, a esquerda"; "o fato essencial – prossegue – é que a social-democracia converteu-se numa ala do fascismo". Estaline pouco depois retomou esta ideia, afirmando: “O fascismo é a organização de choque da burguesia, que conta com o apoio activo da social-democracia. Objectivamente, a social-democracia é a ala moderada do fascismo (...) As duas organizações não se excluem, complementam-se. Não são antípodas, são gémeas.” Foi esta citação de Estaline, que depois faria carreira, que, a partir de 1929, esteve na base da denominação da social-democracia como “social-fascista”.

Foi na sequência do afastamento de Bukharine da direcção da IC (1926-29), em Abril de 1929, que esta, já sobre a presidência de Molotov (1929-34), um fiel de Estaline, decidiu no X Plenário do Comité Executivo da IC (CEIC), em Julho de 1929, identificar a social-democracia ao fascismo, convertendo-a em “social-fascismo”: "Os fins dos fascistas e dos sociais-democratas – afirma-se no relatório principal – são idênticos. A diferença está nas palavras de ordem e, parcialmente, nos métodos"; "no entanto, há alguma diferença, já que o fascismo não tem necessidade de uma ala esquerda que, para o social-fascismo, é absolutamente necessária"; "a ala esquerda do social-fascismo tem como tarefa específica a manipulação das palavras de ordem pacifistas, democráticas e 'socialistas' ''. Mas mesmo estas ligeiras diferenças tendem a desaparecer: "Está claro – prossegue o relatório – que, à medida que o social-fascismo se desenvolve, ele mais se aproxima do fascismo puro". Trata-se de "um processo ininterrupto". "O trabalhismo inglês pode ser definido como social-fascismo em estado larvar", ao passo que "o partido social-democrata alemão já atingiu o estado de mariposa". No entanto, esta evolução dos partidos que influenciavam à época a maioria da classe operária europeia não preocupa os relatores do referido relatório. Apresentam-na mesmo como um fenómeno positivo, capaz de facilitar a revolução: “Na medida em que o social-fascismo alemão aderir abertamente à ditadura da burguesia, apresentando-se francamente como fascismo, a conquista da classe operária alemã para a revolução é fácil”. Três anos e meio depois não foi a revolução que triunfou, mas sim o nazi-fascismo, esmagando tanto comunistas como sociais-democratas.  
 

2.2 – Terceiro Período 
 

Este período ultra-esquerdista e ultra-sectário da IC está também associado à caracterização que se fazia do capitalismo e do imperialismo. Assim considerava-se que o capitalismo tinha passado, desde o final da I Guerra Mundial (1914-1918), por três períodos, o primeiro, que tinha durado até 1923, ano das últimas convulsões sociais na Alemanha, caracterizado por tensões e pressões revolucionárias, o segundo pela “estabilização relativa do capitalismo”, tinha terminado em 1928, o terceiro, chamado de “terceiro período”, que seria o da agonia mortal do capitalismo e do imperialismo. Passava-se pois das lutas pelas “reivindicações parciais e reformas”, para a luta directa pelo poder.

Foi no IX Plenário do CEIC, em Fevereiro 1928, que se defendeu que a "Europa entrava evidentemente numa nova fase de auge revolucionário", começando um "terceiro período". No entanto, já anteriormente Estaline no XV Congresso do Partido Comunista da URSS, em Dezembro 1927, para justificar a necessidade de intensificar o ritmo da industrialização da URSS, defende a tese de que o mundo capitalista ingressou numa nova etapa, da qual um traço principal é o agravamento do perigo de intervenção contra a União Soviética. A “estabilização” do capitalismo chegara ao fim, assim como a “coexistência pacífica” entre os sovietes e os países capitalistas.

Esta mudança de apreciação tinha a ver fundamentalmente com as mudanças de rumo que Estaline empreendia, primeiro em relação ao país, depois na direcção do Partido Comunista e da IC. Depois de expulsar do Partido Trotsky, Zinoviev e Kamenev, nos finais de 1927, e aquela que era considerada a “oposição de esquerda”, Estaline, com os argumentos desta linha política, empreende um ataque à “oposição de direita”, contra Bukharine e seus apoiantes, primeiro nos bastidores e depois às claras, e que culmina com o afastamento deste da Direcção da IC (Abril de 1929) e depois dos cargos que desempenhava no Partido. Assim, a ultra-esquerdização da Internacional tem principalmente a ver com a conjuntura interna da União Soviética. Estaline, diante do Politburo, a 9 de Julho de 1928, lançava o começo da colectivização dos campos e da industrilização rápida, aquilo que, em 1929, foi denominado “a revolução por cima”. 
 
 
 
 

2.3 – “Classe contra Classe” 
 

Outra das novas orientações políticas aprovadas neste período foi o de “Classe contra Classe”. É no VI Congresso da IC, que se realizou entre 17 de Julho e 1 de Setembro de 1928, que é abandonada a politica até aí defendida pela IC, a da “Frente Única” e aprovada esta nova táctica.

Foi no IV Congresso da IC, que se realizou no final de 1922, ainda em vida de Lenine, que se aprovou a política de “Frente Única”. A nova palavra de ordem passa a ser: “Chegar às massas, Frente Única Proletária, Governo Operário e Camponês”. Esta política durante os anos em que prevaleceu teve diversos desenvolvimentos, algumas vezes assumindo-se como uma Frente Única “pelo alto”, ou seja, uma aliança entre as cúpulas da social-democracia e dos comunistas, outras uma aliança “pela base” com os operários sociais-democratas, visando o consequente desmascaramento das suas cúpulas.

A aprovação no VI Congresso da IC da nova táctica “Classe contra Classe”, que só admita alianças “pela base”, previa a aproximação de catastróficas crises económicas nos países capitalistas, o referido “terceiro período” – o que de facto se confirmou com a Grande Depressão, no ano seguinte, nos Estado Unidos – e simultaneamente explosões e levantamentos revolucionários nas sociedades capitalistas avançadas, o que não aconteceu. Para concretizar este clima insurreccional “impunham-se três exigências tácticas. Primeiro os partidos comunistas de outros países tinham que se preparar para tempos tempestuosos, e para tanto traçar rumos absolutamente independentes, recusar toda a colaboração de sociais-democratas e, sobretudo, criar os seus próprios sindicatos rivais. Segundo, os partidos comunistas deviam anular neste processo a influência reformista sobre a classe operária, atacando os partidos sociais-democratas. Na opinião dos estalinistas, estes últimos estavam abandonando o pretenso reformismo em prol do “social-fascismo” e tornando-se o inimigo principal do movimento operário. E por fim, todos os partidos comunistas deviam preparar-se para a luta revolucionária, expulsando das suas fileiras qualquer dissidente, em especial os “desviacionistas de direita”, que as novas circunstâncias haviam transformado no maior perigo interno.” (Cohen, 1990). Por outras palavras, mas com igual sentido outro autor descreve estas mesmas exigências tácticas: “Os partidos comunistas do Ocidente iriam lançar a ofensiva final contra o capitalismo. Os partidos sociais-democratas e reformistas rotulados como “sociais-fascista”, deviam ser considerados como os inimigos mais poderosos do comunismo. Para a revolução socialista, a ala esquerda dos partidos sociais-democratas devia ser considerada como obstáculo até maior do que a ala direita: “quanto mais à esquerda mais perigosa”. Qualquer cooperação ou contacto entre líderes comunistas e sociais-democratas trazia o risco da contaminação.” (Deutscher, 2006). 
 

3 – A catástrofe alemã e o aparecimento das Frentes Populares 
 

Esta política irracional e utra-esquerdista que atacou a IC teve, como já se afirmou, resultados trágicos na Alemanha. A separação e o ódio, que eram recíprocos, entre sociais-democratas e comunistas, permitiram a Hitler subir ao poder, em Janeiro de 1933, sem ter que disparar um tiro e duma penada destruir dois dos mais fortes partidos operários da Europa.

Mesmo depois de Hitler dominar a Alemanha ainda os porta-vozes de Estaline previam o “acordo” entre nazis e sociais-democratas e o iminente declínio da influência de Hitler, a que se seguiria o retorno dos comunistas. Apesar de já ter decorrido um ano de governo de Hitler, Estaline assegurou no XVII Congresso do Partido (Janeiro de 1934) que “a crise revolucionária está amadurecendo e o fascismo está longe de ter ampla perspectiva de vida”.

Verdade se diga que os sociais-democratas também acreditaram que podiam sobreviver sob a pata de Hitler. Posteriormente foram todos igualmente parar aos campos de concentração.

Finalmente, ainda em Maio de 1934 e depois em 1935, no VII Congresso da IC, dá-se uma inversão significativa desta política. O fascismo passa a ser apontado como o inimigo principal e estende-se a mão aos outros partidos operários e da pequena-burguesia para organizar a resistência contra ele. Será o início da época das Frentes Populares. 
 

4 - Como o período do ultra-esquerdista da IC é visto actualmente pelo PCP 
 

Descrita muito sumariamente esta conjuntura, é interessante perceber como ela é percepcionada actualmente por alguns dos dirigentes e quadros intelectuais do PCP. Recorremos para isso a um artigo escrito por Domingos Abrantes e publicado no “Militante” de Julho/Agosto de 2005, sobre a “Importância e actualidade 
VII Congresso da Internacional Comunista
”, onde se afirma relativamente ao período que vimos a analisar: “As orientações sectárias resultavam de causas objectivas e subjectivas. O longo historial de traições da social-democracia (envolvimento directo no esmagamento do movimento operário e revolucionário, participação em governos burgueses responsáveis por graves ataques às condições de vida e direitos dos trabalhadores, responsabilidade pela divisão do movimento sindical, complacência para com medidas antidemocráticas de governos burgueses e que funcionavam como estímulo às forças reaccionárias, recusa sistemática às propostas comunistas para acções comuns para barrar o caminho ao fascismo, incluindo para impedir a chegada de Hitler ao poder) geravam um justo sentimento de indignação e revolta, fácil de levar as emoções a sobreporem-se à análise fria das questões políticas.”

De acordo com este dirigente do PCP o sectarismo dessa época resultava unicamente da traição da social-democracia e da alteração emocional que isso provocava nos dirigentes comunistas, incapazes de fazerem uma apreciação lúcida sobre estes acontecimentos. Triste interpretação que, tal como o artigo, reduz todos os erros a desvios de esquerda e de direita a uma linha imperceptível traçada pelo sempre “sagaz” movimento comunista internacional, e que é incapaz de compreender o que de grave se passou e como isso foi trágico para o movimento operário. Diga-se de passagem que é esta a interpretação que é dada pela obra “A Internacional Comunista”, publicada em três volumes pela Editorial Avante (1976), da autoria do Instituto do Marxismo-Leninismo, Anexo ao Comité Central do PCUS. 

Um outro exemplo, este mais matizado, é o artigo de João Arsénio Nunes, um intelectual do PCP, “O Verão quente de 1936: as Frentes Populares”, publicado noutro número do “Militante” (Julho/Agosto de 2006). Nele apresenta-se a IC como campeã da unidade e a social-democracia como uma força sectária: “Foi... sem hesitação que – apesar das graves divergências ideológicas que opunham os partidos comunistas aos sociais-democratas – logo em princípio de Março de 1933 a Internacional Comunista dirigiu um «apelo aos trabalhadores de todo o mundo» em que se recomendavam contactos com as organizações sociais-democratas com vista à acção comum. Proposta que foi recusada pelos socialistas, como aliás já anteriormente o fora, no próprio dia 30 de Janeiro, a proposta de greve geral dirigida pelo Partido Comunista ao Partido Social-democrata da Alemanha.” Esquece Arsénio Nunes que este apelo de 3 de Março, do Executivo da IC, parece ter sido ditado por um outro apelo, a 19 de Fevereiro, da Internacional Operária Socialista, que convidava a IC a estabelecer um acordo para uma acção comum contra o fascismo e a guerra. Tanto mais, que logo a seguir, numa resolução de 1º de Abril da IC sobre a situação na Alemanha, se defende novamente o “terceiro período”, indicando que a derrota da democracia burguesa era um passo em frente no sentido da revolução proletária.

Depois, no mesmo artigo, num tom de “low profile”, Arsénio Nunes explica o sectarismo dessa época pelo enconchamento e pelas visões simplistas de muitos partidos: “O sectarismo que caracterizava a prática de muitos partidos comunistas, sectarismo derivado de uma convicção simplista de identificação com o «sentido da História». A convicção, em si mesma justa, de que o capitalismo produzira aberrações como o fascismo e o nazismo, aliada à repulsa pelas capitulações sociais-democratas perante o capitalismo, levara a um enconchamento na afirmação repetitiva da própria identidade e dos próprios ideais, ignorando o facto de que a consciência das grandes massas (e não só da classe operária) não se forma tanto pelas declarações de princípios como pela experiência dos sucessos e das derrotas.” Retiradas do seu contexto histórico estas afirmações não deixam de ser verdadeiras, simplesmente havia necessidade de uma análise mais rigorosa e informada da época em causa.

Qualquer dos artigos citados, muito mais o primeiro que o segundo, pretende fazer passar a ideia de que haveria uma continuidade entre este período que vimos analisando e a defesa posterior dos contactos e alianças com a social-democracia e a formação de Frentes Populares, e que esta alteração só se tinha verificado porque as circunstâncias, no fundo, a realidade, se tinham modificado com a subida de Hitler ao poder e o fortalecimento do fascismo.

Este aspecto também esteve em discussão aquando da preparação do já referido VII Congresso da IC, no entanto, alguns dos relatórios de Dimitrov, que viria a ser eleito seu Presidente, principalmente os que prepararam a realização do Congresso, são bem elucidativos sobre a ruptura que esta nova orientação representava em relação ao passado ultra-esquerdista da IC. Lamentavelmente os nossos actuais articulistas continuam a estar mais atrasados do que as posições de Dimitrov, com mais de setenta anos. 
 

5 - O ultra-esquerdismo no presente. 
 

Um pouco antes do 25 de Abril, mas principalmente depois daquela data, a vida política portuguesa foi surpreendida pela denominação dos militantes do PCP e dele próprio como “sociais-fascistas”. Passou a ser vulgar em algumas assembleias sindicais os militantes dos partidos da extrema-esquerda, os “esquerdistas”, pertencentes ao MRPP, à AOC e a outras organizações minoritárias chamarem a muitos dos que estavam conotados como PCP de “sociais-fascistas”. Quem não se lembra da expressão “sociais-fascistas fora dos sindicatos”? Só os que estavam mais familiarizados com a história política do Século XX se poderiam recordar que este termo já tinha sido utilizado, em circunstâncias bem trágicas, para denominar os sociais-democratas. É evidente que estes nossos “revolucionários” não iam buscar os seus argumentos ao arsenal ultra-esquerdista da IC, mas sim aos maoistas, que apelidavam de “social-fascista” a URSS, pois consideravam-na um novo poder de tipo hitleriano e o principal inimigo dos povos de todo o mundo.

Hoje, esta prática esquerdista e sectária que caracterizava aqueles grupos assemelha-se à que a actual Direcção do PCP tem vindo a imprimir ao Partido. Como exemplo caricato referi os apupos que os meninos da JCP tinham feito aos representantes de outras organizações políticas de esquerda que não eram do seu agrado. No “post” inicialmente referido citava igualmente a atitude sectária do PCP e das organizações por ele influenciadas na organização das Comemorações Populares do 25 de Abril.

Com este novo “post” não pretendo fazer a história, nem um levantamento de todas as atitudes que permitem neste momento classificar as posições do PCP como sectárias e esquerdistas. A minha preocupação foi antes de mais alertar para as consequências trágicas que, na história do movimento comunista, atitudes semelhantes tinham acarretado ao movimento.

No entanto, não deixaria de dar alguns exemplos recentes que demonstram aquilo que afirmei. O primeiro caso é a posição tomada em relação à alteração da lei sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG). O PCP entendeu que não se devia lutar pela realização de um referendo, considerando que o resultado deste poderia ser incerto e que por isso, havendo uma maioria favorável no Parlamento, seria aí que se devia proceder à sua alteração. É evidente que esta posição, que logo à partida desvalorizava as opções democráticas do povo português, pretendia provar que só o PCP tinha uma posição coerente, enquanto que o PS e Bloco de Esquerda (BE), principalmente este último, tergiversavam e aceitavam o referendo. Ou seja, cediam aos defensores do “não”, enquanto que o PCP demonstrava que era o único que queria de facto mudar a lei. Este é um exemplo claro de uma posição esquerdista, que visava desmascarar os “falsos progressistas”. Na realidade demonstrava medo da luta, era incapaz de estabelecer a unidade das forças de esquerda e levava ao isolamento do Partido. Só no final, quando a luta já estava em marcha e depois saiu vitoriosa é que se veio juntar, para tentar retirar os dividendos da vitória.

Outro exemplo consistiu no princípio que orientou a Greve Geral, de 30 de Maio: lutou-se para não se dizer que não se fazia nada. Jerónimo de Sousa, em entrevista ao “Avante”, de 24 de Maio, dizia: “com o saber de experiência feito, o movimento operário e sindical tem a consciência de que, quando se luta, nem sempre se ganha no imediato, mas, quando não se luta, perde-se sempre, nesse prolongado e secular e permanente confronto de classes.” A história do movimento operário está cheia de exemplos de acções voluntaristas, em que se decide avançar para a luta sem ter em consideração os factores objectivos e subjectivos que permitam o seu desencadeamento. Álvaro Cunhal costumava dizer que não nos podemos envolver unicamente em lutas que têm o seu êxito garantido a priori. No entanto, parece-me, que esta ideia não é compatível com a participação em lutas que nos isolem das massas e que não nos permitam, mesmo que não se alcancem êxitos imediatos, reforçar a nossa inserção nas mesmas. Lutar para não se dizer que não se faz nada não é um objectivo justo. Por outro lado, neste caso concreto, antes da Greve Geral havia muitas outras formas de luta parciais que provavelmente teriam tido muito maior êxito.

Por último, gostaria de referir as eleições intercalares para Lisboa, onde desde o princípio que a posição do PCP foi sempre “a de que ninguém nos propôs a unidade”, o que não é verdade, “mas mesmo que nos propusessem nós não aceitaríamos”. Sei que esta matéria é complexa e nem sempre a actuação das outras forças de esquerda tem sido clarificadora, mas tendo em vista a experiência passada, deveria ter havido da parte do PCP uma maior abertura ao diálogo. O seu ataque descabelado, tentando sempre juntar o BE ao PS no caso “Bragaparques” é uma manifestação do mais puro sectarismo.

Mas terminaria com esta pérola extraída do “Avante”, de 1/6/07, sobre o António Chora, o representante dos trabalhadores da Autoeuropa, denominado “O Tó faz falta” e assinado por Jorge Cordeiro: “Afixado que foi em Lisboa pela mão do BE um cartaz que grita a falta que lhe faz o Zé – vá-se lá saber porquê o pavor que ele lhe fuja – é caso para se dizer que, com inteira justiça e não menor sentido de oportunidade, a CIP e as principais multinacionais deveriam desde já lançar uma campanha de publicidade onde reconhecidamente levassem, aquém e além fronteiras, mais longe a ideia de que «O Tó faz falta»”. De uma penada ataca-se um candidato de um partido de esquerda, com provas dadas na não complacência com a linha direitista do PS, e um representante dos trabalhadores, eleito por estes democraticamente, insinuando descaradamente que este está ao serviço da CIP e das multinacionais. É o esquerdismo no seu maior esplendor. 
 

6 - Bibliografia Sumária 
 

Claudín, Fernando. A crise do movimento comunista. Vol. 1 - A crise da Internacional Comunista. Global Editora, São Paulo. (Tradução de uma obra publicada inicialmente em 1970, em França. O autor foi expulso, em 1965, do Partido Comunista de Espanha).

Cogniot, Georges, 1969. L’Internationale communiste. Éditions Sociales, Paris. (Juntamente com a edição referida da Editorial Avante, constitui a versão ortodoxa da história da Internacional)

Cohen, Stephen, 1990. Bukharin, uma biografia política. Paz e Terra, São Paulo. (A biografia mais importante deste revolucionário bolchevique. Tradução da última edição inglesa de 1979).

Desanti, Dominique, 1977. A Internacional Comunista. 1º Volume. Assírio e Alvim, Lisboa. (Tradução da edição francesa de 1970. A autora pertenceu ao Partido Comunista Francês).

Deutscher, Isaac, 2006. Stalin, uma biografia política. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro. (Tradução recente de um clássico de 1966. O seu autor faleceu em 1967).

Deutscher, Isaac, 2006. Trotski, o profeta banido (1929-1940). Civilização Brasileira, Rio de Janeiro. (Tradução recente da obra monumental em três volumes sobre Trotski. Edição original de 1963).

Dreyfus, Michel; Groppo, Bruno; Ingerflom, Claudio; Lew, Roland; Pennetier, Claude; Pudal, Bernard e Wolikov, Serge, (direcção), 2004. O Século dos Comunismos. Editorial Notícias, Lisboa. (Tradução da edição francesa de 2000. Resposta à interpretação redutora do Livro Negro do Comunismo).

Hobsbawm, Eric J. (organização). 1988. História do marxismo. Volume 6 – O marxismo na época da Terceira Internacional: da Internacional Comunista de 1919 às Frentes Populares. Paz e Terra, São Paulo. (Tradução de uma obra em 12 volumes, de vários autores, editada inicialmente em Itália, em 1985, pela Einaudi).