Da Natureza Científica das Ciências Sociais

 

Guilherme Statter

 

Samir Amin encerra um seu livro sobre a evolução recente do Capitalismo e do fenómeno da chamada globalização (Samir Amin, 1998) com um capítulo em que apresenta algumas considerações de natureza epistemológica sobre o caracter ou estatuto científico daquilo que ele designa por “teoria social”. Nesse livro, Samir Amin refere explicitamente que utiliza a expressão “teoria social” em vez de “ciência social” por considerar que o conhecimento científico em matéria de sociedade nunca poderá alcançar o estatuto epistemológico de “ciência”, alinhando assim com aqueles que reservam este título ou estatuto para as ciências “físicas”. Invoca Samir Amin em defesa da sua posição, a ideia de que atribuir um tal estatuto epistemológico de “ciência social” àquilo que ele mesmo enfaticamente designa por “teoria social”, corresponderia a transformar as sociedades humanas em agrupamentos sociais similares a manadas de gado e a transformar a pretensamente “burguesa” ciência social, num conjunto de técnicas de gestão dessas mesmas manadas de gado humano. Parece assim Samir Amin partir do princípio que memórias, tradições e valores não serão susceptíveis de estudo verdadeiramente científico. A esse respeito, e em termos naturalmente simplificantes, defendemos aqui a ideia de que enquanto a matéria prima de estudo das ciências físicas serão factos observáveis em cada momento presente (predomínio da perspectiva sincrónica), no caso das ciências sociais ter-se-á sempre que levar em linha de conta a história subjacente à situação que actualmente se queira estudar (predomínio da perspectiva diacrónica).

Adoptando aqui um princípio metodológico de abordagem ao nosso tema de estudo, a partir do geral (ou mesmo muito geral) para o particular, vamos começar por expor algumas ideias próprias (e seu enquadramento naquilo que se considera como adquirido ou de conhecimento consensual), a respeito do que pensamos ser a natureza das ciências sociais em geral e da Economia Política em particular. Deve ainda aqui referir-se que quando se faz uma, ainda que breve, revisão da literatura sobre a metodologia das ciências sociais ou mesmo da ciência em geral, parece que somos confrontados com uma divisão geral muito comum entre, por um lado, as chamadas “ciências físicas” (por vezes designadas por “ciências naturais”, “ciências duras” ou simplesmente “ciências”[1]) e, por outro lado, as chamadas “ciências sociais”. Estas são por vezes agregadas com, ou então diferenciadas de, um terceiro ramo ou tipo de ciências: as chamadas ciências humanas. Parece também ser comum ou possível detectar um certo grau de hierarquia entre estes diferentes tipos de “ciências”, expresso de forma mais ou menos explícita, resultando que as “ciências físicas” parecem apresentar-se como “mais científicas” do que as “ciências sociais” ou que as “ciências humanas”. Parece portanto justificar-se aqui algum esclarecimento a esse respeito.

Depois de uma qualquer revisão da literatura disponível sobre a filosofia das ciências, epistemologia ou teoria do conhecimento, fica-se quase sempre com uma ingrata sensação de incerteza, em resultado da discussão permanente acerca do que constitui (ou deixa de constituir), a ciência ou o conhecimento científico[2]. Caricaturando, poderíamos mesmo dizer que uma análise, ainda que sucinta, das diversas posições em confronto poderia até justificar que nos interroguemos sobre a eventual utilidade do esforço desenvolvido para “melhorar” ou fazer “avançar” o conhecimento científico em qualquer domínio do conhecimento. Na área das ciências sociais a situação seria ainda mais grave, na medida em que as implicações políticas, sociais e económicas de certas teorias tornam ainda mais problemática a avaliação do valor intrínseco de quaisquer postulados e teoremas que vêm a constituir uma qualquer teoria, muito especificamente dado que, a partir do conhecimento adquirido e disponível em ciências sociais, a normalíssima tendência será para se passar àquilo que designaremos de engenharia social. Estamos, como será evidente, a pensar (por exemplo) na aceitação ou rejeição dos critérios de análise da teoria marxista aplicada à economia. Sendo a esse respeito conhecida a tese popperiana[3] de que o marxismo, por exemplo, pura e simplesmente não poderá em caso algum arvorar-se o estatuto de “ciência”.

Pela nossa parte (e sem querer entrar na polémica acima referida e que reflecte aliás o problema mais vasto da determinação da cientificidade de um qualquer ramo do conhecimento), limitar-nos-emos a formular a interrogação de onde colocar a fronteira, se é que tal se justifica, entre o conhecimento científico característico da física ou da química e o conhecimento científico característico, por exemplo, da antropologia cultural. Para então se poder dizer, como parecem fazer Baptista (2002) ou Amin (1998), que em rigor não há ciência social. Por outras palavras, a título de ilustração e traduzindo esta interrogação em termos concretos, caberá perguntar se a entomologia, ramo da biologia que estuda o comportamento dos insectos, é mais ou menos científica do que o é a química orgânica. Ou se a sociologia, por exemplo, poderá alguma vez ser classificada como uma espécie de zoologia aplicada.

 

Entretanto, por outro lado, quando se discutem conceitos e teorias no âmbito das ciências sociais tem que se ter permanentemente o cuidado de evitar alguns perigos que resultem do uso de analogias do âmbito das ciências físicas. Para a maioria dos analistas, as ciências sociais e as ciências físicas são supostas possuir características específicas que tornam problemática a adopção por um qualquer ramo das ciências sociais, de modelos ou esquemas analíticos originalmente concebidos ou desenvolvidos para um qualquer ramo das ciências físicas. Como será consensual, tomamos aqui a posição de que o que mais importa na investigação científica é o objecto concreto a estudar, o qual deverá então determinar quais os métodos ou abordagens mais eficientes para se alcançar algum conhecimento. Mas se será problemático transpor para as ciências sociais métodos próprios das ciências físicas, também a transposição de problemáticas próprias das ciências físicas para o campo das ciências sociais não será isenta de ambiguidades.

Estamos aqui a pensar na reflexão de Wallerstein (1994) segundo a qual, em ciências sociais, a dificuldade no debate científico estará em se determinar se se pode de facto e verdadeiramente superar ou estabelecer uma relação entre, por um lado, o falso debate do particular e do universal e, por outro, o debate entre o ideográfico (aquilo que diz respeito às chamadas ciências históricas) e o nomotético (aquilo que diz respeito às chamadas ciências naturais), pelo recurso a uma metodologia que possa efectivamente descrever sistemas diacrónicos que por definição têm uma “seta de tempo”[4].

A título de ilustração do problema aqui enfrentado refira-se que numa reunião, organizada por iniciativa de economistas de renome mundial mas em que predominavam cientistas físicos[5], e cujo objectivo era justamente debater as problemáticas dos respectivos métodos de estudo e investigação, um dos participantes teve ocasião de chamar a atenção para o facto de no caso da ciência económica, as “partículas” em estudo terem emoções, memórias e ambições (Waldrop, 1992). Tanto quanto parece ser a situação no actual estado de avanço do conhecimento, enquanto que os neutrões (em toda a sua complexa variedade), os electrões, os átomos e moléculas não têm ambições (nem aprendem com experiência passada nem transmitem valores ou símbolos a outras partículas), as “partículas” em ciências sociais em geral, mas também na ciência económica, têm memórias e tradições as quais foram criadas, inventadas e continuam paulatinamente a evoluir. E é precisamente a presença destas memórias, tradições, valores, símbolos e ambições que dão origem à radical diferença entre estes dois tipos de conhecimento científico e respectivos métodos de investigação. Sem que no entanto uma tal diferenciação tenha que implicar um eventual menor “grau de cientificidade” no que diz respeito às chamadas “ciências sociais”.


 

[1] Como se o resto do conhecimento, mesmo que “científico”, não fosse bem “ciência”.

[2] Vide a esse respeito os trabalhos do sociólogo Boaventura Sousa Santos (2001) e do físico António Manuel Baptista (2002) e respectiva discussão polémica.

[3] Em rigor, Karl Popper começa por considerar a obra “Das Kapital” de Karl Marx como um trabalho científico a corpo inteiro na medida em que as teses propostas por Karl Marx são susceptíveis de falsicabilidade. Será assim a posterior formulação do “marxismo” (deturpado por via da inclusão de hipóteses ad hoc e a constituírem uma “cintura protectora”) que vem a merecer a desqualificação de “científica” (Popper, 2002).

[4]A questão de se saber se há ou não uma diferença de método entre as ciências ideográficas (como a História) e as ciências nomotéticas (como a Sociologia) data já de fins do século XIX. Por outro lado, enquanto que as ciências ideográficas são supostas basearem-se no individualismo metodológico, as ciências nomotéticas são supostas basearem-se no colectivismo metodológico, questão também não isenta de ambiguidade e polémica.

[5] Ainda um exemplo do já referido predomínio do paradigma newtoniano numa ciência que pretende estudar uma determinada faceta do comportamento humano.