Temporalidade e Análise Científica

 

Guilherme Statter

 

Como é do senso comum entre cientistas sociais, em toda a análise social é indispensável considerar o vector tempo. Assim sendo, será de fundamental importância considerar, ou ter em linha de conta, saber quais são as mais adequadas ou relevantes “unidades de medida” (temporal) a aplicar. Uma outra forma de considerar este problema será o de perspectivar ou pensar a diferença conceptual entre “conjuntura” e "estrutura”. Como veremos mais adiante, não é difícil encontrar na literatura análises de fenómenos sociais que justamente confundem (ou parecem confundir) causas e efeitos de natureza conjuntural, com causas e efeitos de natureza estrutural. Por exemplo, o fim do regime do “apartheid” ou a implosão da URSS, e as análises produzidas a esse respeito dão-nos disso alguns exemplos. Designadamente as diferenças de interpretação produzidas por “liberais” e “marxistas” (Ben Fine e Zavareh Rustomjee, 1996).

De entre as diversas críticas que é normal encontrar relativamente à alegada menor aplicabilidade (ou mesmo não validade) do paradigma neoclássico na ciência económica é justamente o seu suposto caracter a-temporal. Como se sabe a introdução do vector tempo na análise económica é feita através do juro e da chamada “actualização do valor”, sendo que a atribuição de uma determinada taxa de desconto a uma qualquer aplicação financeira (que acaba por ser a expressão final de qualquer investimento económico) permite transformar um suposto ou esperado valor futuro, num determinado valor presente. A análise económica convencional encararia assim o tempo não como um contínuum dinâmico e com permanentes efeitos de retroacção, mas antes como uma sequência de momentos descontínuos entre si. Um pouco como a ilusão de tempo e movimento criada no cinema pela extremamente rápida sequência de fotografias.

E no entanto devemos ter presente que ao nível daquilo que chamaríamos a cintura protectora do núcleo central do paradigma neoclássico, muitos têm sido os desenvolvimentos teóricos envolvendo a inserção do factor tempo, desde os modelos de crescimento de Harrod e Domar[1] até ao mais recente modelo de Solow, considerado como o fundador da teoria neoclássica do crescimento (Jean Arrous, 1999). O que é importante aqui assinalar é a necessidade, reconhecida por muitos economistas, de integrar na análise factores extra-económicos, designadamente políticos, institucionais e culturais. Em todo o caso, e é isso que aqui queremos sublinhar, da leitura da literatura convencional sobre o tema do crescimento parece resultar a ideia de que o vector tempo é como que considerado ao longo de uma linha horizontal, sendo que a sociedade se vai deslocando da esquerda para a direita (por exemplo...) deixando atrás de si capital acumulado mas (e sobretudo!...) desvalorizado, enquanto vai elaborando à sua frente (no tal sentido da direita...) novo capital, sob a forma de novos conhecimentos e tecnologias incorporadas em máquinas e sistemas de trabalho. A ideia aqui defendida é algo diferente, no sentido em que se propõe não uma linha horizontal mas uma linha ascendente, linha essa que terá tão maior declive quanto maior for o ritmo de acumulação de conhecimento e tecnologia. A diferença de percepção social entre uma linha de progressão histórica de acumulação na “horizontal” e uma linha “inclinada” (de maior ou menor declive), no entanto, só se torna notória se levarmos em linha de conta a unidade de tempo que for efectivamente relevante. Mesmo considerando que, como terá dito Keynes, “a longo prazo estamos todos mortos”. 

 

Uma outra forma de exprimir esta mesma ideia, será o perspectivarmos alguns dos objectos comuns do nosso dia-a-dia: uma caneta esferográfica ou um disco compacto, por exemplo. Cada um destes objectos tem como que por debaixo de si toda uma pirâmide (mais ou menos escondida, mais ou menos esquecida) de conhecimento científico, tecnologia e capital acumulado ao longo de milénios, conhecimento, tecnologia e capital esses que são (ou não...) “património comum da humanidade”.

Devemos também ter presente que estas considerações, relativamente à racionalidade e às unidades de tempo mais relevantes, são válidas quer para o caso de grupos sociais de caracter político ou cultural, quer para o caso de grupos sociais de tipo económico como é o caso das empresas. Vejamos assim brevemente, e deste ponto de vista, a problemática das empresas em geral e das grandes empresas em particular. Até pelo papel instrumental decisivo, da sua utilização pelo poder político africânder.

A determinante influência económica, social, cultural e política exercida em todo o mundo pelas maiores empresas transnacionais é suficientemente elevada para justificar a existência de uma unidade das Nações Unidas dedicada ao seu estudo e observação. Enquanto que a lógica de trabalho da praticamente totalidade das micro-empresas e de muitas PME’s de todo o mundo, tem ciclos de operações que se medem em meses (quando não em dias...), a lógica de trabalho das maiores empresas transnacionais tende normalmente a ter ciclos de operações e de planeamento que se medem em anos ou mesmo em décadas. Já a lógica de trabalho político, no mundo das democracias parlamentares (sujeitas à possibilidade de alternância no poder por via de eleições periódicas), acaba por ser condicionada pelo calendário político (ou pelo oscilar das sondagens sobre o estado de satisfação da opinião pública...) e vem a medir-se em unidades de tempo que rondam, em média, os quatro ou cinco anos. A ocorrência regular de eleições intercalares e para diferentes níveis de hierarquia política ou diferentes órgãos do poder, tenderá a reduzir ainda aquela unidade de tempo. Só em circunstâncias particulares e para determinados tipos de decisão, são levados em linha de conta factores que assumem uma lógica de funcionamento de períodos de tempo de maior duração. Em todo o caso, a experiência e a observação permitem assumir como razoável que a lógica de trabalho decisório no mundo das grandes empresas transnacionais tem um ciclo de aplicação e funcionamento de maior duração, estabilidade e consistência do que a lógica de funcionamento tendencial na maior parte das burocracias estatais[2]. Como será natural, estas reflexões introdutórias ao tema, baseiam-se apenas na consideração do caracter específico do comportamento emergente em cada um dos dois tipos de organização aqui considerados (em todo o caso sempre perspectivados como arquétipos ou referenciais), e não em observação ou estudos de caso efectuados no terreno[3].

Vimos já que o personagem central no caso do paradigma neoclássico em ciências económicas é a ficção (analiticamente útil mas ficção), do “Homo Economicus”. Este personagem central tem uma postulada racionalidade de calculador nato, correspondendo assim como que ao predomínio absoluto e total da personagem central das três personagens que, segundo a análise proposta pela Análise Transaccional em Psicologia de inspiração freudiana, coexistem em cada um de todos nós, seres humanos (Berne, 1984). Para este ”homo economicus”, tal como na mecânica newtoniana, o Tempo[4] em rigor não conta e o seu comportamento será sempre assim um comportamento oportunístico. Há no entanto aqui a assinalar como que um caveat: Como observou Pasteur, “La chance ne sourit qu'aux esprits bien préparés[5]. Quer isto dizer que qualquer actor social que persegue um determinado objectivo estará sempre alerta para as circunstâncias mais favoráveis para a sua consecução

 

Como bem assinala Stephen Smith (2003), “em parte alguma do mundo e à mesma escala que em África, é possível encontrar a coexistência, no tempo presente, de tão diversas temporalidades, a ponto de se pensar na ‘eternidade no instante’ dos surrealistas”. É assim que quando se estuda o comportamento de grupos sociais concretos (como será o caso dos africânderes na África do Sul ou dos gestores empresariais na ex-URSS, ao longo de várias décadas), é importante termos presente quer os conceitos de estratégia dos actores sociais quer a ideia da sua racionalidade, avaliada em termos de unidades de tempo de referência. É por isso que nos parece ser importante referir, ainda que de maneira muito sucinta, as ideias de “tempo” e “racionalidade”, no contexto das relações entre as diversas ciências sociais. Pensamos que será assim importante considerar com algum detalhe a problemática da percepção, por parte dos agentes sociais e económicos, do tempo em que se movem, em relação ao qual tomam decisões e que para eles é efectivamente relevante. A ortodoxia económica subjacente ao neo-liberalismo que tem prevalecido nas esferas dominantes das chamadas "Bretton Woods Institutions" (o FMI e o Banco Mundial) baseia-se, como se sabe, num princípio de caracter dedutivo e apriorístico: o de que o comportamento dos indivíduos é baseado no “princípio da maximização da utilidade”. No plano do desenvolvimento das ideias, e segundo Joan Robinson (1973) o grande contributo da "Teoria Geral" de Keynes terá sido o corte radical com a ortodoxia neoclássica, de caracter axiomático, em que a racionalidade reclamada para o sistema pelos seus proponentes e defensores era tida como sendo de caracter "eterno" (logo fora do tempo concreto, histórico, social e humano) e "universal" (logo fora de todo e qualquer e contexto geográfico e cultural). Ainda segundo a mesma Joan Robinson, Keynes terá procurado, explícita e especificamente, estudar a economia concreta do seu tempo, com o intuito de compreender e explicar o que estava objectivamente a acontecer com as sociedades concretas, histórica e culturalmente condicionadas, que lhe era dado conhecer. Nesse sentido poderíamos dizer que Keynes (re)abriu o caminho para o futuro encontro dos campos de interesse da teoria económica e da antropologia. Dizemos que (re)abriu pela simples razão de que já Marx e Engels tinham reflectido e escrito sobre as relações entre a História e a Cultura, por um lado, e a Economia Política, por outro. Acrescente-se, de passagem, que num mais profundo nível de análise do pensamento neoclássico em Economia, a sociedade na sua globalidade era concebida como um todo harmonioso e sem internos conflitos de interesse. Ou seja, na sociedade não existiriam classes nem outros grupos sociais que pudessem ter entre si interesses contraditórios.

Temos assim também que os proponentes e defensores da linha substantivista são também aqueles que caracterizam a ciência da economia como sendo o estudo concreto das condições concretas de produção e distribuição de bens e serviços tidos como úteis e/ou necessários pelos membros de uma qualquer sociedade. Tal como nos poderia ser sugerido por Joan Robinson, os formalistas discutem "coisas", enquanto que os substantivistas discutem "pessoas", sendo que para as "coisas" o tempo é neutro e para as "pessoas" o tempo é tudo e determinante. Por outro lado, e para concluir esta brevíssima introdução ao tema proposto, deveremos ainda ter presente que, como diria René Thom (1993), a Teoria da Catástrofe é em rigor uma fenomenologia das superfícies de descontinuidade. Ora, se pensarmos que a sua aplicação às ciências sociais e económicas perspectiva cada momento histórico concreto como sendo mais uma "superfície de descontinuidade", então deveremos pensar que cada um desses momentos históricos concretos, quer o caso da transição na África do Sul de um regime de “apartheid” para um regime de democracia pluri-racial, quer o caso da implosão da ex-URSS, têm subjacente, ou correspondem, a um entrecruzar de um numero indeterminado de "ondas de variabilidade" de dimensão (ou função matemática) incerta ou pouco conhecida. A "arte" dita de futurologia que se poderia então fazer deveria consistir na identificação de qual seja a determinante "onda de variabilidade" (ou o conjunto de "ondas de variabilidade") que estarão presentes, subjacentes e actuantes em cada momento histórico concreto.

De entre estas diversas ”ondas de variabilidade” deveremos distinguir os factores externos às situações na África do Sul e/ou na ex-URSS, muito em particular no contexto do conflito a que se convencionou chamar de “guerra fria”, assim como (no caso específico do África do Sul) o fim do império colonial português em particular os casos de Angola e Moçambique. Como se sabe estes “estados ultramarinos portugueses” funcionaram durante mais de dez anos como zonas tampão, até de um ponto de vista militar, entre a actuação dos movimentos de libertação e o território da África do Sul. No caso do conflito latente na chamada “guerra-fria”, e para o caso da África do Sul, o alinhamento incondicional do governo do Partido Nacional ao lado das potências da NATO e “cobrança de rendas” em termos políticos e até económicos de um tal alinhamento. No caso da ex-URSS teríamos a considerar a chamada “corrida aos armamentos”, agravada ou intensificada com a chamada “guerra das estrelas” e a carga estrutural assim imposta ao sistema económico soviético. Poderíamos ainda considerar uma outra “onda de variabilidade”: a evolução acelerada de novas tecnologias de tratamento da informação e de comunicação, sendo que essa evolução acelerada ao longo das décadas de Setenta e Oitenta, tem permitido um muito maior grau de integração e de controle de operações industriais, comerciais e financeiras à escala do globo, reduzindo assim os custos de diversa natureza associados à dispersão geográfica de pessoas e territórios.

Outras “ondas de variabilidade” a ter em linha de conta na análise que aqui se procura fazer, serão desde logo a principal de todas, a mais profunda e de maior carga sistémica: a tendência de longo prazo para a expansão do sistema, tendência essa que resulta da chamada “queda tendencial da taxa de lucro”, traduzida (na perspectiva aqui sugerida) pela conhecida “Onda de Kondratieff”, ou ainda e alternativamente, a “Grande Onda” estudada por David Hackett Fischer (1996).

Para utilizar uma imagem que possa eventualmente esclarecer toda esta questão, diríamos aqui que importa descer abaixo do nível de observação da Geografia Humana, para estudar o comportamento das camadas tectónicas que subjazem aos continentes em que vivemos.

De certa forma, passar da Geografia à Geologia.


 

[1] Modelo desenvolvido nos anos Trinta e que procura explicar o crescimento económico com base na taxa e nível da poupança assim como na produtividade da economia como um todo (racio “capital/produto”).

[2] Poderá no entanto argumentar-se em sentido contrário lembrando a dependência de muitas decisões e actuações de gestores de topo das grandes empresas MNC’s relativamente às oscilações diárias (ou trimestrais) das principais bolsas de valores.

[3] Embora nos pareça ser razoável trazer aqui à colação a experiência vivida durante cerca de 30 anos numa grande multinacional de referência e a observação e leitura de casos no que diz respeito ao comportamento de burocracias empresariais e elites governativas em diversos países.

[4] Estamos a pensar, como será óbvio, em toda a carga cultural, social e familiar que advém da vivência no tempo, quer do tempo passado, ou herança pessoal, quer do tempo futuro, ou expectativa de consequências afectivamente avaliadas.

[5] http://www.evene.fr/citations/auteur.php?ida=718&p=2