A Utopia e as malas Vuitton (1)

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Fernando Penim Redondo, Agosto 2007

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Tinha acabado de ler, de enfiada, os livros “Foi Assim” de Zita Seabra e “Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via” de Raimundo Narciso.

Andava ainda a remoer a ausência, em qualquer dos livros, de uma abordagem da “queda da utopia” que atingiu, no fim do século XX, tanto os autores como muitos outros milhares de militantes entre os quais me incluo. Sem menosprezar a importância dos depoimentos contidos nos livros não deixo de considerar que muito mais importante teria sido, para mim, uma explicação de como os autores lidaram com o luto das suas convicções.

Quis o acaso que nesse preciso momento eu encontrasse num jornal a notícia da participação de Gorbatchev num anúncio publicitário da VUITTON. Dizia assim:” Na imagem, repleta de simbolismo, Gorbachev aparece sentado no banco de trás de uma limusina com uma mala Louis Vuitton a seu lado, enquanto contempla, com nostalgia, o que resta do muro de Berlim.”
 

Para perceber o efeito que teve em mim tal coincidência é preciso saber como foi determinante o “período Gorbatchev”, na URSS, para a inspiração e eclosão das mais importantes dissidências que afectaram o PCP ao longo dos anos oitenta. Os mais distraídos, ou mais jovens, poderão para o efeito beneficiar de uma cronologia, mesmo que sintética:


1985

Março - Gorbatchev é eleito secretário-geral do PCUS
Junho - Cavaco torna-se Presidente do PSD
Agosto - Álvaro Cunhal publica “O Partido com as paredes de vidro”
Outubro - Cavaco ganha as legislativas, o PCP desce para 15,49 % dos votos e 38 deputados

1986

Fevereiro - Perestroika e Glasnost são apresentadas no 27º Congresso do PCUS
Março - O “Documento dos Seis” é entregue à direcção do PCP por Vital Moreira,Veiga de Oliveira, Silva Graça, Victor Louro, Fernando Marques e Dulce Martins

1987

Julho - Primeira maioria absoluta de Cavaco Silva, o PCP tem 12,14 % e 31 deputados.

1988

Maio - Zita Seabra é expulsa da Comissão Política do PCP
Junho -É apresentado o documento da “Terceira Via” por Pina Moura, Raimundo Narciso e outros.
Novembro - Zita Seabra é expulsa da Comité Central do PCP
Dezembro - XII Congresso do PCP, no Porto. José Luís Judas, Barros Moura e outros fazem intervenções críticas.
Dezembro - Zita Seabra publica "O Nome das coisas" nas Publicações Europa-América

1989

Março - Raimundo Narciso demite-se de funcionário do PCP
Novembro - Queda do muro de Berlim

1990

Janeiro - Vital Moreira publica "Reflexões sobre o PCP", na Editorial Inquérito
Janeiro - INES é apresentado no Forum Picoas com adesão de muitos comunistas do sector intelectual
Maio - XIII Congresso do PCP em Loures, o primeiro depois da queda do muro de Berlim, assiste a várias intervenções dissonantes.
Maio - Vital Moreira abandona o PCP

1991

Agosto - PCP toma posição pública de apoio ao “golpe de Moscovo” contra Gorbatchev
Agosto - Reunião de militantes críticos no Hotel Roma contesta posições do PCP sobre a URSS
Outubro - Segunda maioria absoluta de Cavaco Silva, o PCP tem 8,8 % e 17 deputados.
Novembro - PCP expulsa Barros Moura, Mário Lino, Raimundo Narciso e José Luís Judas
Dezembro - Gorbatchev resigna


Os acontecimentos listados e a correspondência das datas falam por si.

Há que destacar o facto de o PCP se encontrar entre dois fogos. Por um lado as denúncias e reformas pouco ortodoxas de Gorbatchev e, por outro, a dinâmica vitoriosa de Cavaco e do que ele representava. Os acontecimentos na URSS dificultavam uma lógica revolucionária e, ao mesmo tempo, a prática eleitoral em Portugal revelava cada vez mais as suas próprias limitações.
Nos oito anos que medeiam entre 1983 e 1991 o PCP passou de 18,07 % e 44 deputados para 8,8 % e 17 deputados.

Talvez nunca se venha a saber em que medida Cavaco beneficiou das convulsões na URSS, convulsões que podem ter afectado não só o PCP como toda a esquerda.

A situação de cerco sofrida pelo PCP nos anos oitenta também explica as dificuldades que o partido teve quando foi preciso lidar, internamente, com as vozes dissonantes de destacados militantes.

Tanto Gorbatchev como os dissidentes do PCP seguiram uma linha idêntica; exigiram a abertura ao mundo e a reposição de práticas democráticas. Denunciaram os erros e os crimes que, em sua opinião, tinham sido cometidos.

Não quiseram, ou não souberam, no entanto, enunciar alternativas viáveis, anti-capitalistas, às relações de produção e às opções económicas e sociais que caracterizavam a sociedade soviética. Sociedade soviética que, quer queiram quer não, funcionava como modelo para muitos comunistas e como mostruário para os cidadãos comuns.

A partir de 1992, e em alguns casos mesmo antes, os mais destacados dissidentes esqueceram o PCP, e aparentemente as suas utopias, e trataram de prosseguir as suas carreiras políticas no PS, no BE ou, no caso de Zita Seabra, mesmo no PSD.

Dez anos mais tarde, por incrível que pareça, a Renovação Comunista limitou-se a reeditar, em ambiente mais “soft”, as experiências dos anos oitenta e, ao fim de algum tempo, acolheu-se à proteccção do Bloco de Esquerda. A história repete-se.

Desta forma se chegou à pantanosa situação actual em que, do CDS ao PCP, as propostas mais radicais para a sociedade portuguesa não vão além do “capitalismo civilisado” e da “salvação do Estado Social” mesmo quando os caminhos para os atingir são espectacularmente diferentes uns dos outros.

Nos próximos “episódios”, se conseguir, tentarei explicar:

- como é que eu, um militante de base, sem fama mediática, dedicado ao trabalho sindical numa empresa de tecnologia, vivi os agitados “anos Gorbatchev”
- a minha opinião sobre a versão soviética da utopia igualitária, os seus desiludidos, e as diversas maneiras de lidar com o que sobrou dela.