As "fraquezas" da direita

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Fernando Penim Redondo, Abril 2005

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Têm-se multiplicado, nos últimos tempos, as declarações inflamadas sobre as derrotas dos partidos da direita, sobre o hiato nas direcções desses partidos e até sobre a necessidade, ou mesmo a possibilidade, de refundar a direita em Portugal.

A meteórica governação santanista e as tragicomédias dos congressos do PSD e do CDS servem de pasto aos comentadores mediáticos e os dirigentes de esquerda, navegando nas mesmas águas, espalham entre os incautos uma confortável, mas perigosa, sensação de alívio e de bonança.

Impõe-se perguntar:
- será que os interesses da direita estão sob ameaça séria ?
- as principais teses da direita, a fundamentação das injustiças em que se baseia o seu poder, estão realmente em regressão ?

Infelizmente a resposta a tais perguntas é negativa.
Nenhum partido de esquerda perspectiva atacar os interesses materiais das classes dominantes. Todos eles concentram as suas propostas no plano das prestações sociais sem beliscar a organização social da produção e sem questionar a propriedade ou as relações de produção próprias do capitalismo.
Os “empreendedores capitalistas” são unanimemente considerados os únicos capazes de promover o desenvolvimento económico, autênticos “salvadores da pátria”.

A distinção tradicional, em que a direita defendia o status quo e a esquerda pretendia destruí-lo, passou à história.

Assim sendo cabe indagar a razão de tanto alarido nas hostes da direita.

É verdade que um partido como o PSD tem dificuldade em afirmar uma clara identidade ideológica e em diferenciar inequivocamente as suas propostas mas tal deve-se, no essencial, ao facto de o PS ter despudoradamente invadido o seu espaço político. Por isso as fronteiras são cada vez mais imprecisas e a refrega desliza para questões secundárias e arrevesadas.

A direita diz que é preciso controlar as despesas da “máquina do Estado” mas só para evitar que os impostos dos trabalhadores, que têm sido os principais pagadores do sistema, deixem de ser suficientes e que alguém tenha a “peregrina ideia” de fazer pagar também os poderosos. Daí resultam alguns acessos de gritaria liberal e as consequentes pressões e chantagens que, como é costume, levarão o PS a moderar os ímpetos da campanha eleitoral logo que estejam ultrapassadas as eleições autárquicas

Por outro lado as classes dominantes temem os perigos que o girar do mundo continuamente desenvolve; quer se trate da ameaça dos baixos preços chineses, dos galopantes preços do “crude” ou do impetuoso desenvolvimento da tecnologia essas classes não acreditam que o governo socialista, por incompetência, esteja em condições de salvaguardar os seus interesses.
O “choque tecnológico” é uma graçola que ninguém leva a sério.

Em suma, as grandes ameaças que pendem sobre os interesses da direita têm origem externa, independente da vontade e do controle dos partidos de esquerda e estes, se ameaça constituem, é mais no plano da incompetência para entenderem o que está em jogo do que pela existência de algum plano próprio para criarem uma realidade social alternativa.

Por isso as grandes discussões que se avizinham, em que os partidos de direita se preparam para lançar todas as forças do campo “académico” e da “consultoria internacional”, são apenas as do papel e dimensão do Estado na sociedade e também do peso relativo dos sectores produtivos (têxteis ou turismo ?) e das “opções estratégicas” nos transportes e na energia.

Triturados pelos imperativos da dependência económica os partidos de esquerda lá irão a reboque das “decisões inevitáveis” e não poderão ter outra estratégia que não seja a de proteger os “empreendedores nacionais” sob pena de ver desaparecer os empregos e minguar as receitas fiscais.

Sem equacionar este falso dilema e sem romper este “círculo vicioso” no plano ideológico será impossível transformar o mundo em que vivemos.
É necessário demonstrar a viabilidade de novas relações de produção, esse é o tipo de inovação de que mais precisamos.
Em vez de funcionários precisamos de cidadãos empenhados em construir um novo universo produtivo, um novo modo de produção.

Trata-se de um caminho difícil mas sem alternativa.

Por isso em vez da refundação da direita precisamos, isso sim, é de refundar a esquerda.