Uma imagem ou mil palavras ?

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Fernando Penim Redondo, 01.07.2009

 

Uma imagem vale mais do que mil palavras. É velha esta forma de comparar a força cognitiva e comunicativa das imagens e dos textos mas, para além de velha, ela é também inadequada.
Um texto, e antes dele a linguagem em que se expressa, é uma pura convenção. Mesmo quando os idiomas são ideográficos os símbolos que os integram resultam de regras ou de tácitos sociais.
As imagens, pelo contrário, estão tão longe de ser convencionadas que nem sequer percebemos bem quais as regras que usamos para as interpretar. São menos sociais mesmo quando incluem objectos que socialmente têm algum significado.
 

Raramente nos damos conta de que interpretar imagens, e tomar decisões com base nelas, é um dos actos que praticamos mais frequentemente nas nossas vidas, pelo menos no período em que estamos acordados.
O mundo entra-nos naturalmente pelos olhos e muito antes de saber ler qualquer texto, ou até entender qualquer palavra dita, já essas imagens nos permitem conhecer e actuar sobre o espaço e a comunidade à nossa volta.
Se caíssemos num planeta desconhecido mas iluminado, onde não entendessemos mesmo nada dos símbolos, ainda assim seriam os olhos e as imagens que eles captam a nossa única hipótese de sobreviver.
Quer o pensamento quer a interpretação do mundo podem existir mesmo sem palavras mas isso não significa que, por exemplo, as ideias deste texto fossem facilmente transmitidas recorrendo apenas a imagens.


Também não costumamos pensar que um texto escrito, quando se apresenta a um potencial leitor começa por ser, para esse leitor, “apenas” uma imagem.
Antes de chegar ao sentido de um texto temos que passar por várias fases; (1) reconhecer que estamos perante a imagem de um livro, (2) abrir uma página e nessa imagem localizar os caracteres, (3) verificar se os caracteres são conhecidos (podem ser chineses ou árabes e, portanto, meras imagens para a maior parte de nós), (4) determinar a língua/convenção que devemos usar para a descodificação do texto e depois, só depois, (5) estaremos perante um texto e começaremos a ler.
 

Muitos pensam que o aforismo “uma imagem vale mais do que mil palavras” significa que não conseguiríamos descrever com mil palavras o conteúdo de uma imagem o que, em muitos casos, até pode ser verdade. Mas esse não é o sentido mais profundo do ditado.
Mesmo que nos seja possível descrever uma imagem com mil palavras demoramos muito mais tempo a ler as mil palavras, e a captar o seu significado, do que a interpretar a imagem que lhes deu origem.
Imaginemos por instantes que conduzimos um automóvel com os olhos vendados e baseados em explicações verbais sobre a estrada e o comportamento de cada veículo ou peão que nos rodeia e teremos um vislumbre da enorme diferença de velocidade entre imagens e textos.
O cinema tira partido dessa velocidade na interpretação das imagens e constrói a sua narrativa com base num vertiginoso “descubra as diferenças” que nós jogamos nas calmas enquanto somos bombardeados com imagens sucessivas. Como dizia Godard “O cinema é a verdade a 24 imagens por segundo”.


Dir-se-á que o texto é sempre de autoria humana e que, portanto, só deve ser comparado com as imagens feitas por homens, quer eles sejam pintores, arquitectos ou fotógrafos. Ao contrário dos textos, que são combinações particulares dos componentes da língua, aceites como um resultado intelectual, íntimo, das experiências vividas, as pinturas e fotografias são vistos como pedaços arrancados, mesmo quando sofrem tranformação, do rosto visível da realidade envolvente. Por outro lado tais pedaços, fotografias ou quadros, são sempre inevitavelmente lidos por quem os observa como mais um objecto presente no vasto palco imagético do mundo.
O que acabamos de dizer não significa que não seja dado um tratamento especializado a tais objectos. Nomeadamente à fotografia que ainda é, para muitos, a representação mais fidedigna do “mundo real”.
Mas as razões do fascínio que a fotografia desperta e a particular leitura de que os objectos fotográficos disfrutam ficará para outra ocasião.

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