Computadores – Questão Técnica ou Questão Social ?

_____________________________________________________________

Fernando Penim Redondo,

Publicado em "o diário" a 7 de Novembro de 1987

_____________________________________________________________

  

Tal como muitos outros produtos "tecnológicos" os computadores parecem seguir, quanto ás preocupações dominantes que suscitam, um padrão de evolução típico. Começando por ser questões científicas, na medida em que partem de uma ou mais descobertas da investigação, evoluem posteriormente para o plano tecnológico durante o processo de viabilização da produção de quantidades socialmente significativas. As questões económicas tornam-se dominantes através dos investimentos e da luta pela conquista dos mercados em consequência dos quais a massificação da utilização dos produtos tecnológicos traz para primeiro plano as preocupações de carácter social.

Esta ideia pode ser testada com produtos tecnológicos mais antigos do que os computadores como por exemplo os automóveis e os televisores.
No que diz respeito aos computadores estamos agora a chegar ao fim da "fase económica" e despontam já os sinais da "fase social".
Isto não significa que os aspectos económicos, ou mesmo tecnológicos e científicos deixem de ter importância; apenas deixarão de ser dominantes.
É claro que esta passagem leva o seu tempo e acabará por ter de ser forçada pela massificação real, quando ela se verificar, condicionada pela maior ou menor capacidade das organizações e dos indivíduos para aperceber, equacionar e perspectivar as consequências sociais dessa massificação.

O processo de massificação do uso dos computadores sofreu uma aceleração decisiva com a introdução dos microcomputadores mas o desenvolvimento completo dessa tendência está longe do esgotamento quer nos escritórios e nos serviços publicos quer na actividade produtiva.

Como a "história" dos computadores é excepcionalmente curta ela possibilita a numerosos indivíduos e grupos atravessarem mais do que uma fase e mesmo, nalguns casos, todas as fases (científica, tecnológica, económica e social).
Tal facto explicará por que é tão comum uma atitude de embevecimento técnico socialmente acrítico, bem como o atraso na abordagem das questões económicas subjacentes à produção, aquisição e utilização dos computadores.

Duas ordens de questões ilustram amplamente o que acaba de ser enunciado; as que respeitam às formas de utilização dos computadores e as que se prendem com a eventual produção nacional dos mesmos.
O lugar comum de que utilizar computadores é bestial e a "Lapalissada" de que devíamos produzir, nós próprios, os nossos computadores (e porque não os carros e aviões, etc) compuseram o caldo de cultura para o florescimento da "modernização".
Os políticos em voga acotovelaram-se no afã de "modernizar" a sociedade, a economia, a indústria, as fábricas e mesmo os pobres dos trabalhadores (muitas vezes vítimas de cursos sem sentido).
Evitam o trabalho de explicar o significado do termo “modernização” fazendo de conta que a coisa é evidente, que o problema nem sequer se põe. Entusiasmados, dezenas de analistas e outros escreventes igualmente ignorantes, pegam-lhes na palavra e ao fim de pouco tempo os pacatos telespectadores e os circunspectos leitores já são furiosos defensores dos robots, antenas parabólicas, supercondutores e outras maravilhas da era tecnológica.

Isto até nem faria mal nenhum se não resultasse num entupimento da capacidade crítica que deveria sempre aferir, pela bitola das necessidades humanas, os "prodígios" que para alguns são apenas um negócio.
Não se nega, e seria absurdo negar, as virtualidades imensas contidas nas tecnologias da informação (e nas outras). Nem é isso que está em causa.
O que é aberrante é a ausência de diferenciação no que respeita às potenciais utilizações dessas tecnologias.
Será indiferente informatizar balcões de bancos ou guichets de hospitais ?
É igual automatizar uma fábrica para produzir o dobro com as mesmas pessoas ou automatizar para produzir o mesmo com metade das pessoas ?
É igual pôr um computador a contabilizar as propinas escolares ou a apoiar pedagogicamente o ensino ?
É igual usar os computadores para animação de gráficos publicitários ou de diagnóstico médico ?
(Note-se que perguntámos "é igual ?" e não "é melhor ?").
Todos sabemos que não. Só não sabemos por que nunca se discute isto.

Pelo que se sabe os japoneses foram exigentes compradores e eficientes utilizadores antes de se tornarem os maiores produtores de robots. Deveríamos meditar nisto antes de embarcarmos em ilusões "industriais" no domínio da informática.
Mas voltemos de novo à "modernização". Alguns, mais estruturados ou mais sinceros, explicitam minimamente o seu entendimento do termo.
É mais ou menos isto: Modernização = Iniciativa privada + produtividade + inovação

A esses diremos que chamam "modernização" a uma receita antiga.
Os acréscimos de produtividade, sem dúvida desejáveis, são para distribuir pelo maior numero de intervenientes já que a revolução científica e técnica é, ela própria, produto da sociedade como um todo.
A inovação, o trabalho criativo, são processos que ocorrem no cérebro humano o que implica, irremediavelmente, que os trabalhadores serão os exclusivos proprietários de tais meios de produção.