Impressões de uma viagem à China

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Fernando Penim Redondo, Maio 2006

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Alguém disse que os 1.300 milhões de chineses são, neste momento, o mais importante recurso natural do planeta e que o século XXI será, em grande medida, o resultado da forma como tal recurso vier a ser usado.

 

Escapando ao mecanicismo desta opinião prefiro dizer que o futuro da sociedade humana será brutalmente influenciado por aquilo em que se tornarem os incontáveis chineses (e também os indianos).

 

Uma viagem pela China não pode fazer muito mais do que proporcionar um série de “impressões”, que valem por ocorrerem no local mas que não pretendem senão dar conta da perplexidade do viajante.

 

A realidade física ultrapassa as expectativas mesmo quando se parte com alguma bagagem de leituras sobre o país, a magnitude das transformações em curso sente-se “na pele”.

 

O gigantismo institucional de Pequim, que numa só avenida tem vários hotéis do tamanho do Ritz de Lisboa,  rivaliza com o modernismo caótico de Xangai, cujo ritmo de crescimento pode ser simbolizado pelo combóio-bala que nos transporta ao aeroporto, a 400 km à hora, sobre tecnologia “magnética” da Siemens.  

 

No Sul, onde se situam as “zonas económicas especiais” de Macau e Hong-Kong, a China dispõe de cinco aeroportos internacionais num raio de 150 km em torno da cidade de Guangzhou (Cantão).

 

À volta das cidades, a perder de vista, vão-se erguendo os “dormitórios” de 20 e 30 andares para onde são “desterrados” os moradores dos bairros tradicionais que, no centro, darão lugar aos arranha-céus das multinacionais. Segundo nos disseram os moradores são avisados com apenas algumas semanas de antecedência e recebem modestas ajudas para o realojamento.

 

Parece no entanto haver uma diferença notória entre as cidades grandes e as cidades pequenas como Xian, que tem apenas (?) quatro milhões de habitantes. Nestas, embora exista também uma actividade comercial desenfreada e as ruas também estejam apinhadas, é ainda possível observar certos “requintes orientais” que as tornam muito mais aprazíveis.

 

A ginástica praticada ao amanhecer nas praças e jardins, onde muitas vezes se encontram instalados autênticos “parques infatis” para idosos, e a proliferação de esplanadas nas avenidas que preservam uma arquitectura e uma escala mais humana são sinais de um saber viver que surpreende agradavelmente quem vem das grandes metrópoles. 

 

Também se sentem mais as tradições religiosas e as superstições. Os chineses têm, por exemplo, um conjunto de superstições relacionadas com os números que chegam a tomar aspectos caricatos (muitos hotéis não têm quartos no quarto andar pela simples razão de o 4 ser tradicionalmente associado à morte).

 

Em Pequim disseram-nos que a gigantesca praça Tiananmen se encontra encerrada à noite por se recear a repetição no local de imolações pelo fogo praticadas por membros da seita Falungong.

 

 

Sociedade em mutação

 

 

Milhões de pessoas que assistiram aos exageros da “revolução cultural” têm agora, de novo, que suportar enormes transformações no seu modo de vida.

 

Migrar do campo para a cidade, ser deslocado de um bairro antigo no centro para a periferia, ver lojas cheias de produtos estrangeiros com preços inacessíveis, percorrer muitos quilómetros entre as “colmeias” da periferia e o emprego, as mais das vezes em bicicleta ou à boleia de uma bicicleta alheia.

 

As bicicletas são um símbolo da vida frugal e laboriosa dos chineses. Em contrapartida também já se vêm muitos chineses de máquina fotográfica em punho num sinal claro de que começam a poder disfrutar (e registar) momentos de lazer. Bicicletas e câmaras fotográficas são claros sintomas da coexistência das tradições e das transformações em curso ao nível das vidas comuns.

 

As bicicletas são aos milhões, cuidadosamente arrumadas nos “parques de estacionamento”, mas parecem estar a ser substituídas, em larga escala, pelas motoretas e as motas. Nas entradas das  cidades sucedem-se os “stands” com milhares de motas alinhadas à espera dos clientes.

 

Enquanto os casais só poderem ter um filho a motivação para o automóvel será menor mas alguns cruzamentos já sofrem engarrafamentos consideráveis de VW, Audi e Hyundai (quase todos fabricados na China) que representam uma parte considerável dos automóveis existentes, isto com base na mera observação casuística.

 

Os felizes pequineses proprietários de automóveis são vítimas do inusitado contratempo constituído pelas tempestades de areia que se abatem regularmente sobre Pequim. O vento trás as poeiras directamente do deserto da Mongólia Interior e deposita-as sobre os seus carros que, de manhã após este “nevão”, estão uma verdadeira lástima.

Como há muita mão de obra até se podem ver mulheres, com um aspirador, a limpar o pó dos parques de estacionamento...

 

Nos locais turísticos vê-se muita gente oriental, frequentemenet com ar de camponeses, as mais das vezes “lutando” com as recém-compradas câmaras fotográficas e tentando caber na imagem juntamente com o Mausoléu de Mao Tse Tung. Tal indicia um activo turismo interno, e uma certa proliferação de gadgets, mas confesso que também pode tratar-se de coreanos, ou japoneses, que eu não tenho meios para os destrinçar.

 

O número de vendedores ambulantes é enorme e é possível regatear até valores impensáveis, caindo no ridículo de “combater” por uma redução de vinte cêntimos, perdendo toda a noção de razoabilidade. Onde quer que pare um autocarro é-se rodeado de vendedores ambulantes que agitam os seus produtos entre os quais se destacam os “lolex”, corruptela de uma famosa marca de relógios.

 

O comércio é intensíssimo e com horários muito alargados. Qualquer retardatário pode ainda assim redimir-se numa grande quantidade de mercados de rua, com as suas coloridas bancas, onde mal nos aproximamos somos bombardeados com o proverbial “just looking”. Suponho que os vendedores tantas vezes ouviram a expressão, dita pelos estrangeiros passantes, que devem pensar tratar-se de uma forma de saudação.

 

Há muito pouca gente a falar bem inglês, mesmo em Hong-Kong, mesmo nas recepções dos hotéis. Esta limitação impedirá a China de ir ainda mais longe como grande potência económica global.

 

O acesso às formas de cultura popular ocidentais está de algum modo limitado. Foi possível constatar por experiência própria que, por exemplo,  o acesso aos blogs do Blogger está interdito (apesar de ser possível fazer posts neles) e também não se consegue aceder a certas ferramentas de “discussão on-line”.

 

 

Dois países um sistema

 

 

Parafraseando, e desafiando, o slogan oficial temos que confessar que não conseguimos detectar o “carácter socialista” da R. P. China.

 

O fosso entre os mais ricos e os mais pobres é abissal e parece crescente, os sectores económicos na mão dos privados crescem constantemente e são muito poucos os que parecem estar destinados a permanecer sob controlo do Estado. É cada vez maior número de pessoas ganha o seu sustento como assalariado nas empresas privadas.

 

Como se isto não bastasse é também preciso acrescentar que a educação e a saúde são pagas pelos cidadãos que não beneficiam do “Estado Social” que tantos de nós consideram adquirido e irreversível. Uma das nossas amigas contou-nos que o avô, com mais de 80 anos, em cada internamento hospitalar que lhe acontecia deixava os filhos “de tanga”. No caso concreto dos sete filhos só três têm condições económicas para partilhar a despesa.

 

Por tudo isto penso que aos dois países, Taiwan e RPC,  corresponde um e um só sistema económico. Pelo que vi nas televisões e nos jornais, a unificação será apenas uma questão de tempo.

Os negócios assim o esperam e os políticos assim farão.

Segundo consta a explosiva Xangai está sob forte influência dos dinheiros  de Taiwan que, de certa forma, estão a regressar a casa já que eram de Xangai os mais influentes empresários que fugiram para a ilha.

 

Os sinais da política são muito discretos, como se a China se tivesse rendido sem condições ao mais seco pragmatismo. Um retrato enorme de Mao sobre as portas de acesso à cidade proibida, no seu isolamento, quase parece descabido.

 

Os homens de negócios foram autorizados a pertencer ao partido comunista o que tem possibilitado situações inacreditáveis como a construção, para residência de um dirigente, de uma réplica de um grande palácio francês nos arredores de Pequim, com frescos nos tectos e repuxos de bronze no lago fronteiro. Mesmo quando não são atingidos tais extremos temos ainda assim os “condomínios fechados” de grande luxo.

 

As denúncias de corrupção das autoridades e de confusão entre os cargos públicos e os interesses privados são abundantes. 

 

A China parece ser constituída por uma massa enorme de camponeses pobres e operários das periferias, no limiar da subsistência, por uma “classe média”  que muitos estimam nos 200 milhões, ancorada nas multinacionais, no funcionalismo e nos serviços e, finalmente, uma minoria de ricos e muitíssimo ricos. É para estes últimos que existem as lojas Dior, Chanel, Rolls Royce, Ferrari e outras.

 

O povo miúdo, para quem se vão abrindo apesar de tudo novas possibilidades económicas, frequenta o MacDonalds ao Domingo e vai aprendendo, conforme pode, as virtualidades do consumismo. Para encher o ego popular lá estão os arranha-céus, como a torre Jin Mao em Xangai, que com os seus 88 andares é a quarta mais alta do mundo. Uma ilusão de chegar mais alto do que os americanos.

 

A questão que se põe não é, quanto a mim, se a R.P.China está a resvalar para um qualquer tipo de capitalismo, mais ou menos selvagem, mais ou menos parasitado a partir de fora. Isso penso que não oferece grandes dúvidas.

 

A verdadeira questão que não consegui esclarecer é a da eventual existência de um desígnio nacionalista no desencadear das transformações em curso, do grau de controlo que tal nacionalismo realmente exerce sobre os acontecimentos e das intenções de tal nacionalismo se, e quando, tiver sucesso na consolidação da China como potência económica global.

 

Não havendo na R. P. China formas democráticas de legitimação e “controle” do poder é quase impossível estabelecer um nexo claro entre o interesse público e popular e as manobras do Estado e do “nacionalismo económico” que este parece favorecer.