A questão comunista

Miguel Portas, in DN, 28 de Março 2002

 

Não sei, sinceramente não sei, se ainda há caminho para o PCP. Quando um partido trata o mais experiente dos seus deputados, João Amaral, do modo que fez - dispensando-o fosse qual fosse o preço a pagar -, não sei se ainda lhe resta caminho. Claro que a direcção tinha todo o direito em fazê-lo. Extraordinário é que tenha usado esse poder. João Amaral poderá ter os defeitos que lhe queiram pôr. Mas pensando como se sabe que já pensava, nunca deixou de ser um deputado disciplinado. Ao correrem com ele, os dirigentes do PCP fizeram tábua rasa de um passado onde nunca hesitaram em usá-lo, mesmo que o preço fosse a perda de mais um deputado. Se os dirigentes não se importaram, porque haveria de ser o povo comunista do Porto a importar-se?

Não sei, sinceramente não sei, se ainda há caminho para o PCP. Outro dia a TSF abriu os seus telefones à crise do PCP. Foi como um grito desesperado de liberdade. Militantes desataram a telefonar. Disseram o que lhes ia na alma, o que se recomenda não se dizer em público. O mal, claro, não era do partido, mas do mundo que lhe troca as voltas. O mal, claro, não era do partido, mas dos traidores da comunicação social que não perdem uma para denegrir a casa. E o mal, claro, não era do partido mas dos vendidos que vêm para a praça discutir a crise em público e que a direcção não tem coragem para expulsar.

É tramado quando se chega a este ponto. O pior cego é o que não quer ver, diz o ditado e ele aplica-se como uma luva à Soeiro Pereira Gomes. Os militantes foram formados sobre certezas que ruíram e assistiram a sucessivas derrocadas. De algum modo é compreensível que, com a idade a avançar, se refugiem nas certezas das razões contra o mundo. Já o mesmo se não pode dizer dos dirigentes. A sua cegueira é pior, porque é a que decorre da sabedoria. Eles sabem que estão a perder e que o melhor da vida há muito vem abandonando o partido. Acham é que não têm como responder a isto. Aguentar a tormenta, eis a palavra de ordem. Em consequência, refugiam-se no tempo em vez de combaterem aqui e agora - dentro de 20, 50, cem ou 300 anos a causa levantar-se-á de novo. Chama-se a isto a estratégia da fé.

Não sei, sinceramente não sei, se ainda há caminho para o PCP. Em lugar algum está escrito que o comunismo - não como corpo de ideias, mas enquanto movimento político, esteja ao abrigo da morte. Em muitos países nem sequer existe esquerda política, quanto mais esquerda especificamente comunista. Esquerdas sociais e esquerdas culturais existem, qualquer que seja a latitude do globo. Esquerda política, depende. Depende dos homens e do modo como sabem ou não sabem travar os combates.

Só sei que o Partido Comunista não atravessa simplesmente mais uma curva difícil. Ele encontra-se na encruzilhada onde uma nova vida ou a morte se travam de razões. E não vejo como, com as forças que no seu interior se confrontam, se poderá dar a volta ao destino.

Entre "ortodoxos" e "renovadores" decidem-se as piores características do comunismo português, as que decorrem de uma cultura que considera o partido como um mero instrumento de poder para a conquista do poder. O desatino decorre do facto de a "conquista do poder" ter sido adiada para a semana dos nove dias. Aos ortodoxos sobra o partido como instrumento de poder e o meio há muito se metamorfoseou em finalidade. Jamais o largarão, ponto. Com os renovadores, a questão é diversa: como sair de um gueto que transforma a resistência em horizonte da própria acção política? Dito de outro modo: como construir as pontes que permitam a "partilha" da governação?

Não há compromisso possível entre estas leituras. De um lado vemos o Comité Central encontrando explicações para o insucesso eleitoral em tudo o que é exterior ao próprio partido; do outro, Edgar Correia explicando que o PCP, contra o ascenso da direita, deveria ter aguentado António Guterres... Neste partido já existem dois partidos, esta é a verdade pura e dura. Se o PCP tivesse tradições democráticas para resolução de conflitos, talvez pudessem coexistir e os militantes que fossem decidindo. Como tal não sucede e o que se trava é uma batalha de poder, não há remédio. Aliás, ambos o sabem. Só não sabem é divorciar-se civilizadamente. Os que vão sair, só dali sairão a pontapé. E os que vão ficar apenas esperam que os outros saiam pelo seu próprio pé, para não terem que os expulsar. No meio estão milhares de homens e mulheres sofrendo, sem saberem o que fazer, sem saberem, até, o que pensar. Apenas suspeitam que esta história só pode acabar mal.

O PCP enganou, muito para lá do previsível, as suas fraquezas. Uma liderança histórica com autoridade adquirida na acção, uma revolução incompleta mas iniciada e muita sabedoria táctica no longo recuo que se seguiu, deram aos comunistas portugueses orgulhos de sobra. Mas agora já não há como. Agora, tudo o que foi arrogantemente esquecido ou subestimado, regressa para ajustar contas: a fraquíssima qualidade política e humana da generalidade dos dirigentes de segunda e terceira geração; o peso esmagador de um aparelho profissional onde, em regra, sobraram os que não tiveram energia para sair; a imensa indigência com a teoria; e a completa incapacidade de renovar militâncias, mensagens e ideias. O problema do PCP não é o do poder, mas o de aprender a viver e a sentir numa sociedade que muda muito mais rapidamente do que ele. A batalha, verdadeiramente, não é entre chefes. É entre um partido fora do tempo e o próprio tempo.