Intervenção para o CC

Camaradas membros do Comité Central do PCP: faço esta intervenção na convicção de que ela seja mais um contributo para o debate, sereno e aberto, que o Comité Central precisa de realizar. Na verdade, o debate das questões que se colocam ao PCP não pode ser eternamente adiado. Ouvimos várias vozes dizer que o debate é importante e decisivo, mas "agora não". Isto é dito com sincera convicção. Mas, perdoem-me a franqueza, se o "Grupo do Agora Não" for adiando sucessivamente o debate, arriscamo-nos a nunca o fazer ou a fazê-lo tarde de mais.

O ponto de partida do que pretendo dizer é o seguinte: o PCP é um partido demasiado importante e necessário aos trabalhadores e ao país para podermos continuar a assistir ao seu lento definhamento, sem uma vigorosa e certeira reacção. O que se passa com o PCP diz respeito e é da responsabilidade de todo o partido. O dever de encontrar os caminhos para o fortalecimento do PCP cabe a todos.

Esta reunião do dia 19 de Janeiro (bem poderia ter sido mais cedo!) não é uma reunião como muitas outras. O que está em debate é a definição de uma estratégia para as eleições de 17 de Março, numa situação particularmente difícil: o quadro político favorece a bipolarização e o PCP acaba de sair de um grave revés eleitoral.

A análise dos resultados não foi feita em todo o seu significado. A questão mais urgente é a de determinar as razões que levaram a que, num quadro político global em que o eleitorado puniu o PS, o PCP fosse precisamente perder para o PS presidências e votos. Por que não capitalizou o PCP o descontentamento popular com o PS? Por que perdeu o PCP precisamente para o partido que estava a ser castigado pelo eleitorado?

A resposta a esta questão é essencial para definir uma estratégia adequada para as legislativas de 17 de Março. Mas há uma outra questão: quem deve fazer esse debate e tomar as decisões adequadas? É certo que nada impede formalmente que o debate termine agora no CC.

Mas, nas circunstâncias actuais, isso seria muito insuficiente: primeiro, porque não permitiria envolver e mobilizar todo o partido no processo de debate e, sublinho, no processo de decisão; depois, porque assim não seria possível alterar orientações que estejam fixadas em congresso e que devam ser questionadas; depois, porque não permitiria que o partido debatesse critérios quanto às listas e futuro grupo parlamentar; finalmente, porque não permitiria fazer alterações na direcção que eventualmente se mostrassem necessárias para o reforço da dinâmica partidária.

Fala-se em algumas matérias que o congresso extraordinário deveria examinar. Fala-se nas relações com o PS. É importante clarificar: o centro do debate é o PCP e a sua estratégia para as legislativas. Como deve colocar-se o PCP? É credível e mobilizadora do eleitorado a afirmação de que o PCP é, por si só, alternativa?
Não, como é evidente.

Então, qual deve ser a posição do PCP? Deve avançar, tomar a iniciativa, apresentar uma plataforma política às outras forças de Esquerda? Deve afirmar a sua disponibilidade para assumir responsabilidades na execução de uma plataforma de Esquerda?
Temos de debater como é que o PCP é mais útil na defesa dos interesses dos trabalhadores e do país, como é mais atractivo face ao eleitorado, como é que este verá de forma mais eficaz o voto no PCP.

O apelo é para que o debate decorra sem a sombra recriminatória que vem toldando o ambiente e com a correcção de práticas persecutórias totalmente inaceitáveis. Que se tomem agora as decisões necessárias ao reforço da unidade e fortalecimento do PCP e se lhes dê execução em prazo breve. Virá sempre a seguir um mês e meio de acção especificamente eleitoral, em que todos estaremos empenhados. Em que todos fazem falta.

Concentremo-nos, agora, no essencial: no PCP, nos problemas e nas formas de os superar, garantindo, pelo debate, unidade e capacidade renovada de intervenção.